A ÉTICA DA EMPRESA E A ÉTICA PESSOAL


Imagine que sua empresa é flagrada cometendo uma irregularidade. Pode ser pequena, pode ser gigantesca, como a que recentemente abalou a Volkswagen (que reconheceu ter fraudado testes de controle antipoluição de alguns de seus modelos movidos a diesel). Independente do que acontecerá com a companhia, independente do tamanho do prejuízo, independente da “vergonha” pública, a pergunta é: e você nesta história? Se você é um comunicador empresarial (diretor, gerente ou analista), como deve se posicionar num caso desses? Qual o limite entre a ética da empresa e a ética da pessoa?

Difícil, hein?

Vamos abordar a questão pelo lado interno da organização, considerando as forças que regulam o ambiente corporativo. Se você é um diretor de Comunicação (ou cargo equivalente) e participa das formulações estratégicas, você tem bastante acesso às “intimidades” da empresa, incluindo aquelas decisões que se restringem ao círculo de diretores. São questões polêmicas ou difíceis, que dividem opiniões, e que determinarão os caminhos da organização. Ou o corpo de diretores chega a um consenso ou a decisão é imposta pelo presidente, como juiz do impasse. Essa é a hora em que a diretoria “fecha questão”, as divergências iniciais são esquecidas e todos assumem o compromisso de adotar as medidas – e as responsabilidades – decorrentes daquele direcionamento.

Mesmo que você tenha discordado, alertado sobre problemas, indicado possíveis sanções, prejuízos, danos à imagem e à reputação... mesmo assim, se a diretoria assume uma posição e você é membro dela, você vai junto!

A etiqueta e a prática corporativas exigem essa postura. Na imensa maioria dos casos, é isso o que acontece. Mas não tenha dúvida: se sua moral ou sua ética acomodam esta situação, você torna-se cúmplice dessa decisão. Simples assim. Diretores que alegam desconhecimento são, a princípio, suspeitos. Ao menos, de incompetência.

Se você é gerente, tende a ser bastante desconfortável quando há dúvidas acerca da legitimidade de algumas das orientações recebidas de cima, mas sua posição na cadeia de comando exige obediência às ordens superiores. Se você conhece o risco de determinada decisão, mas compactua com ela, você também é corresponsável, se não legalmente, se não diretamente, moralmente ao menos. É evidente. O que fazer? Não é fácil deixar um emprego, claro, mas não há como negar que sua aceitação a algo intrinsecamente errado (e que, no seu íntimo, fere a seus princípios) é uma decisão pessoal.

Agora, se as coisas chegam a você bastante filtradas e nebulosas, mas você desconfia do “cheiro da brilhantina”, seu direito é questionar o chefe, pedir detalhes e esclarecimentos. Se estes não lhe são dados, e você continua na desconfiança, manifeste este incômodo de forma explícita. Embora você seja impelido a continuar seu trabalho, pelo menos você colocou claramente sua posição. É o mínimo a se fazer.

Analistas e todos os mais abaixo na hierarquia, normalmente, estão mais distantes destas discussões, o que não quer dizer que eles também não tenham o direito de pensar e questionar. Afinal, alto ou baixo na escada de responsabilidades, todas as pessoas de uma organização devem exercer sua ética em cada atividade de seu dia-a-dia.

O cidadão antenado em um mundo hiperconectado busca hoje- e valoriza muito – posturas corretas e transparentes. Empresas que agirem desta maneira terão maiores chances de sobrevivência no longo prazo. Cabe à Comunicação defender e posicionar-se a favor de um posicionamento como esse. Cabe ao comunicador exercer sua cidadania e exigir posturas éticas corretas. Não há, de verdade, diferença entre a ética da empresa e a da pessoa. Há, porém, uma questão de atitude. Colocar-se em confronto com uma orientação “de cima” nem sempre é fácil.

Na II Guerra Mundial, os nazistas perpetraram barbaridades contra a humanidade que até hoje assombram a consciência de todos nós. Muitos dos envolvidos naquelas atrocidades buscaram o álibi de que apenas “cumpriam” ordens. Embora forçada, essa é uma analogia que exige reflexão.


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