MAFALDA, LIÇÃO DE VIDA.


Antes de tudo, o que me atraiu para a Mafalda foi o traço. Um bico de pena muito acurado, fino, delicado, que permite incluir muitos detalhes extremamente precisos em um espaço muito pequeno. Um automóvel Citroën 2CV (o carro do pai dela) é um 2CV perfeito. Uma mesa de jantar poderia incluir talheres, guardanapos, pratos copos e uma cadeira de bebê em que você nota até o vinco da madeira. Na calçada, aparecem ladrilhos lascados ou assentados fora de prumo. Esses detalhes, para mim, eram encantadores, eternos, nostálgicos.

Depois, as expressões dos personagens. Mafalda transmite mil emoções com as derivações da bolinha de seu nariz, a direção do olhar (dois pontinhos pretos), o franzido das sobrancelhas. A rebeldia de seus cabelos parece real! Manuelito, o amiguinho “curto” de inteligência, encara o mundo com aquele espanto genuíno de quem não entende nada e se desespera diante dessa incompreensão com tal força que gera mais empatia que escárnio.

Afinal, quem nunca se sentiu ignorante diante do grande esquema das coisas do universo?

Esse tipo de desenho aparentemente simples é, na verdade, dificílimo de fazer, ainda mais por tanto tempo e com tamanha qualidade. Mas logo, Mafalda me pegou por outro lado. Ela chegou na minha vida nos anos 1970, quando a América Latina vivia majoritariamente sob regimes militares truculentos e carrancudos, quando a gente gritava “Abaixo a Ditadura”, pensava em liberdades impossíveis e buscava pequenas alegrias em frestas momentâneas de lucidez. E Mafalda entregava exatamente isso, porque ela nos fazia pensar.

E quando penso “Mafalda”, me vêm à mente uma historinha antiga, em que ela lê no dicionário a definição de “democracia” e tem um ataque de riso profundo, prolongado, chegando a preocupar seus pais que, pela expressão de seus rostos (outra vez, a expressão), claramente pensam que sua filha ficou maluquinha.

Imagine: maluquinha, a Mafalda? Um dos personagens mais lúcidos a aparecer nos quadrinhos. Em uma tirinha, Mafalda, ou qualquer dos personagens do argentino Quino (falecido dia 30 de setembro), podia nos dar uma lição de política; em outra, explicar o significado da ironia; ou ainda, fazer transformar coisas simples da vida em uma poesia encantadora. Tudo isso com leveza, graça e humor. Combinação que é, afinal, a fórmula perfeita de comunicar. Porque, assim, as coisas ficam gravadas para sempre em nossa memória. Como lições de vida.

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