Novos tempos, novas marcas: novos propósitos?


Pandemia, crise econômica e mudanças sociais profundas. Diante dessas imponderabilidades, é natural que nos últimos tempos todos nós tenhamos vivido em permanente indagação a respeito de nossos propósitos e valores. Muita gente decidiu priorizar seus objetivos de vida, desapegar de muita coisa e deixar de lado preocupações que, de repente, deixaram de fazer sentido ou perderam importância dentro de uma escala de novas necessidades. Nas empresas, aconteceu a mesma coisa.


Demandas ocasionadas pelas novas condições de trabalho obrigaram todas as corporações conscientes a rever suas políticas de pessoal. E clamores da sociedade por maior transparência e sustentabilidade, entre outras, obrigaram as empresas e revisar seus posicionamentos. Essas são circunstâncias que fazem as empresas “olharem para dentro”, introspectivamente. E esses questionamentos, se levados a sério, podem provocar mudanças importantes.


Isso talvez explique a atual onda de mudanças de marca. Quase toda semana, empresas anunciam trocas de logotipo (a forma estilizada do nome da marca) ou logomarca (o desenho que representa a marca graficamente). A Lacta, por exemplo: a tradicional fabricante dos famosos bombons Sonho de Valsa deixou de lado as letras serifadas da antiga logo em favor de outras sem serifa mais fortes e atuais, mantendo a ondulação da base da letra “L”. O conjunto ficou mais moderno e mais direto.


A simplificação, aliás, é uma tendência, traduzida em uma linguagem mais minimalista, mais objetivas. Alguns exemplos são bastante significativos. A cadeia de linha branca Ponto Frio, que agora se chama Ponto (o pinguim presente na marca anterior desapareceu, dando espaço para um ícone estilizado que sugere comandos de teclado, uma referência ao comércio on-line de hoje). O mesmo caminho tomou o Nu Bank. Sai a marca de linhas intercruzadas para uma logo sólida, mais forte e menos rebuscada que a anterior.


Entre as montadoras, mais de uma dúzia delas mudou seus emblemas. A Renault acaba de anunciar a sua troca: no lugar do losango metálico, tridimensional e pesado, entra outro feito de linhas simples, bidimensionais. A Nissan vem usando, desde 2020, uma marca que é quase uma “sombra fina” da logo anterior. A General Motors, que mudou a marca ao mesmo tempo em que anunciava seu compromisso com o carro elétrico, parece ter encontrado uma maneira de sugerir uma entrada USB sob as letras GM.


E aqui surge um ponto importante: se a mudança da logo reflete uma mudança de postura ou de posicionamento, as marcas devem mostrar essa mudança na prática. Dizer que mudou e colocar um desenho novo na frente não adianta se isso não refletir uma realidade. No mundo de hoje, de grande vigilância digital, falsas promessas serão logo desmascaradas. Por mais bonita que seja a nova logo.

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