O inacreditável Puma londrino
- 20 de jul.
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Como um Puma brasileiro foi parar nas ruas de Londres
Às vezes, as pautas praticamente te atropelam. Eu caminhava na Kingsway, uma grande avenida que dá de frente para a Bush House, sede da BBC em Londres, e vi passar na minha frente um Puma. Olhei e registrei: “Um Puma!” Então, meio segundo depois, a ficha caiu: “Peraí, um Puma brasileiro em Londres?” E lá ia ele, um dos esportivos de maior sucesso no Brasil nos anos 1980. Na cor dourada, com placa brasileira, o carro freou em um sinal vermelho lá na frente. Dei uma corrida para ver de perto, mas ele virou uma esquina e sumiu.
Uns meses depois, fomos jantar na casa de uma querida colega que trabalhava na Globo na Inglaterra. Era um encontro só de brasileiros. Entre eles, o psiquiatra Ivan Lemos, que fazia um curso de especialização nas terras da rainha Elizabeth II. Quando ele chegou, a anfitriã logo avisou: “Piquini, você sabia que o Ivan tem um carro brasileiro aqui em Londres?” Virei-me para o recém-chegado: “É um Puma dourado?” Ele respondeu surpreso: “Isso mesmo, já viu?”
Entrevistei o sujeito enquanto comíamos.
O carro foi parar na Europa por pura chance. Antes de viajar, Ivan se despedia de amigos em uma roda de chope no Rio de Janeiro, onde ele morava, e lamentou ter de deixar seu adorado carrinho para trás. Um dos colegas, um armador que exportava Fiat Unos para a Europa, ofereceu o transporte de graça desde que Ivan fosse buscar o Puma no porto de Salerno, na Itália. “Não precisou perguntar duas vezes”, me disse Ivan.
Com o dinheiro contado para a gasolina, foi de Londres até o sul da Itália de avião e retornou guiando. Foi parado várias vezes no caminho por gente curiosa. O carro foi farejado por cães em duas fronteiras antes de aportar na Inglaterra, onde se tornou um sucesso instantâneo.
Ivan encontrou diversos bilhetes no para-brisas. Uma revista queria fazer uma reportagem, por exemplo, mas a maioria era ofertas de compra. “Se fosse vender iria para leilão, renderia mais”, esnobou Ivan. Mas nem tudo era uma maravilha. A manutenção dava dores de cabeça. “Quem reclama dos mecânicos brasileiros não conhece os ingleses”, comentou Ivan.
O artigo saiu no Jornal do Carro, com foto do Puma à sombra do Big Ben, feita pela Vânia. Foi uma das matérias de maior repercussão daquele ano.
No jantar, inclusive, revelamos aos convivas que a Vânia estava grávida. Providenciaram uma champagne que, aberta, explodiu e todo o líquido foi projetado para o teto do apartamento, onde congelou imediatamente. Celebramos a futura chegada do Pedro sob uma chuva de gotas de champagne que caíam sobre a mesa.
Esse texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Confira, nos links abaixo, outros textos do Piquini sobre temas relacionados.




