A camisa de "Gola Olímpica"do Caetano
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Caetano Veloso e a camisa do Festival de 1967
Todo mundo assistia aos Festivais de Música Popular Brasileira da TV Record. E, em 1967, foi o ano em que um raio caiu duas vezes no mesmo lugar: Caetano Veloso e Gilberto Gil chegaram ao mundo juntos. Gostei do Gil, mas me liguei no Caetano. Magro, cabelão encaracolado, simpático, sorridente, estiloso. Nunca tinha visto uma camisa como a que ele usava, com um colarinho que subia enrolado no pescoço. Minha mãe disse que se chamava “gola olímpica”. A música era “Alegria, Alegria”. Até hoje entro num túnel do tempo quando a ouço.
Ele logo virou um queridinho da TV. Participava de um programa chamado “A palavra é...”, no qual artistas tinham de adivinhar a música que tivesse uma palavra aleatoriamente pronunciada pelo apresentador. O Caetano ganhava sempre. Depois ele ficou fera: brigou com a plateia no festival de 1968 (“Vocês não estão entendendo nada!”), foi preso pela ditadura, teve de sair do país e foi para Londres.
O tempo passou. Já formado, trabalhando, eu e a Vânia tínhamos decidido ir embora. E comprar passagem de avião para o estrangeiro em 1985 era algo muito complexo. Uma colega que morava fora nos indicou o agente de viagens dela, chamado Roberto, que trabalhava numa agência na Barão de Itapetininga com Praça da República, centrão de São Paulo. Entramos no prédio estilo rococó que existe até hoje e acabamos sentados na frente de um homem que era a cara do Caetano Veloso.
E, conversando sobre viagem, estudando as passagens mais baratas possíveis, não aguentei e perguntei. “Você por acaso é irmão do...”, mas ele nem me deixou completar a pergunta. “Sim”, respondeu. Ele era o Roberto Veloso. Se quiserem conferir, ele está na foto da capa do LP “Uns”, com o Caetano e todos os irmãos, muito iguaizinhos.
Contei sobre minha admiração pelo ídolo, lembrei do Festival da Record e, não sei como a memória funcionou ali, mencionei a camisa de “gola olímpica”. Ele riu. E nos contou que o Caetano não tinha uma roupa bacana para a noite da final do festival de 1967. O Roberto, que tinha acabado de chegar da Londres daqueles anos 1960, sacou da mala a famosa camisa de gola rolê (aquela mesma, que tanto me marcou) e um paletozinho de tweed, e emprestou-os para ao irmão brilhar na telinha da TV.
Acabamos comprando um bilhete só de ida São Paulo-Madri, via Viracopos, pela Lan Chile, que dá uma ideia da dureza em que vivíamos e, depois de desembarcar por Madri, de perambular por Paris, acabamos, como o Roberto, primeiro, e como o Caetano, depois, em “London London”, “looking for flying saucers in the sky”.
Este texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Se quiser continuar a leitura, veja outros textos relacionados nos links abaixo.




