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Correspondente brasileiro em Londres: encontro com a história

  • há 33 minutos
  • 2 min de leitura
fotografias em preto e branco do Highgate Cemetery, em Londres, com túmulos, esculturas e cenários históricos

Encontro marcado com minha história

Uma das grandes burradas que fiz ao me mudar para a Europa, pensando em ser correspondente internacional, foi não ter levado comigo uma máquina de escrever. Dá para acreditar? Mas foi assim. Somente em 1986, quando morávamos em meio ao Clapham Common, parque gigante ao sul de Londres, encontrei à venda em um brechó ali perto uma daquelas Remingtons antigas, pesadas, cinza-escuro, com teclas pretas em escadinha. “Martelei” muito nela. Escrevi zilhões de cartas, mas poucas matérias. Entretanto, uma delas está entre as mais memoráveis daquele tempo de minha vida: a visita ao Highgate Cemetery, mundialmente famoso por abrigar o túmulo de Karl Marx.

Entrevistei pessoas em inglês, sem falar inglês, incluindo a administradora do cemitério, que reclamou que só o governo chinês contribuía com os custos de limpeza e manutenção da maior atração pública do local. Pesquisei a história do lugar em bibliotecas, em livros e jornais, com meu dicionariozinho na mão, traduzindo tudo. Listei nomes de pessoas famosas enterradas ali. Levantei a lista de pássaros e vegetação característicos do local. E descobri histórias sobrenaturais, como a do poeta Dante Gabriel Rossetti que, ao sepultar a esposa, colocou junto ao corpo um manuscrito de poemas inéditos. Sete anos depois quis recuperá-lo e, diz a lenda, a cabeleira vermelha da mulher havia crescido nesse tempo e preenchido todo o caixão.

Foi uma excelente reportagem, tornada completa com vários rolos de filme branco e preto que saíram da máquina fotográfica da Vânia Coimbra, companheira de vida e aventuras e que registraram no detalhe aquele lugar inacreditável, de visual do tipo “Harry Potter hard core”: as raízes das árvores centenárias provocaram calombos gigantes no solo, desalojando as lápides dos túmulos que pareciam fincadas no solo por um coveiro maluco. Muito louco.

Nas condições precárias daquele recomeço de vida, a gente enviava tudo ao Brasil pelo correio e nem sempre sabíamos se nossas matérias haviam sido publicadas. Algumas semanas depois, eu lia jornais brasileiros no subsolo da loja da Varig em Hanover Street, quase esquina com a Regent Street, endereço chiquérrimo em Londres, quando de repente, o cara à minha frente comentou em voz alta: “que matéria legal”. Ele jogou o jornal sobre a mesa e era o caderno de Turismo da Folha de São Paulo, com a nossa matéria publicada, com várias fotos.

Todos adoramos um elogio inesperado e eu fiquei feliz como um menininho que ganha um pirulito. Contei a ele que eu havia escrito a matéria, rimos daquela tremenda coincidência e conversamos por alguns minutos, em um raro momento de “calor de tribo” naqueles tempos de dura inserção na desconhecida realidade londrina. Me senti no direito de ficar com a página do jornal e embolsei-o. Está guardado aqui em casa, em alguma caixa.

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