A primeira humilhação a gente nunca esquece
- Marco Piquini
- há 3 horas
- 2 min de leitura

Eu havia recebido o convite oficial para o coquetel de recepção aos jornalistas presentes ao Salão do Automóvel de Genebra 1987, oferecido pela SMMT (Society of Motor Manufacturers and Traders), a Anfavea na Inglaterra. Estava orgulhoso: ter sido convidado àquele evento era o primeiro reconhecimento oficial ao meu status de “Brazilian Automotive Correspondent”, como estava impresso em um cartão de visitas que eu distribuía na época, no comecinho de minha aventura europeia.
Fui a pé ao local da recepção, um palacete em meio a um parque, vestido com um casacão de frio, porque Genebra no inverno é de lascar o cano: o grande lago que domina a cidade funciona como um freezer ao ar livre. Não conhecia ninguém. Fiquei circulando até que a secretária do SMMT, que me dera o convite em Londres, me introduziu a um grupo de jornalistas e executivos.
Antes que eu pudesse falar “Good Evening”, um cara grande, com uma taça de champagne na mão e uma flor amarela na lapela do paletó, olhou lá de cima para mim e disse, bem alto e bem devagar, para que todos entendessem perfeitamente: “Are you Brazilian? I would never accept a bank check from you!” (“Brasileiro? Eu nunca aceitaria um cheque seu!”
Todo mundo riu.
Demorou alguns segundos para a ficha cair. O Brasil havia recém-anunciado uma moratória unilateral à dívida externa, dentro de um dos muitos planos imaginados para resolver a crise econômica e problema da crônica inflação daqueles anos 80 (quem não viveu não faz ideia da “zona” que vivemos...).
Saí imediatamente, envergonhado e nervoso. Andando de volta para o hotel, ao lado do lago, “congelei”. Parei em um bar e pedi um shot de gim. Quando levei o copinho à boca, de uma só vez, o líquido se espalhou pelo meu peito: o fundo do copo ficou grudado ao balcão de aço inoxidável, partido pelo choque térmico provocado pela bebida que saiu da garrafa.
Que noite! Era para esquecer, mas essas coisas a gente não apaga da cabeça.







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