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Se “parece real”, vira real

  • Marco Piquini
  • há 6 horas
  • 2 min de leitura
Quadro "Ophelia", de 1852, do pintor inglês John Everett Millais.
A ilustração é o famoso quadro "Ophelia", de 1852, do pintor inglês John Everett Millais.

A versão fake “Sina de Ofélia” mostra como o mundo digital atropela a realidade


Com repostagem nas redes, compartilhamentos em grupos de família e o “buzz” que se seguiu, a internet foi dominada pela versão fake da música “Sina de Ofélia”, da cantora americana Taylor Swift, remixada de forma anônima e com a ajuda da IA, com vozes de cantores brasileiros conhecidos.


A música fake teve sete milhões de visualizações no streaming até ser removida do Spotify e de outras plataformas. Uma enormidade para algo que, oficialmente, “não existia”.

Mas o ponto aqui não é música, nem tecnologia: é o mecanismo cultural por trás do clique. Por que foi tão fácil enganar as pessoas?


A coisa toda funcionou porque “parecia real”. E parecer real no velocíssimo mundo digital é uma coisa muito forte. 

Na internet, a estética constrói o produto. O acabamento técnico legitima, narrativas de bastidores criam tração e prova social (a viralização nas redes) abre caminho para o fake “desfilar” à vontade. 

Em um ecossistema que recompensa a reação rápida, a checagem transforma-se em etapa opcional, um luxo cognitivo.


Nesse ambiente, nossos cérebros não fazem auditoria, constroem atalhos.


A pesquisa TIC Domicílios aponta que metade dos brasileiros que usam internet não checa se a informação recebida é verdadeira.


Agora, deixe de lado o “Dilema de Ofélia” e pense na reputação de sua empresa. 


Em uma era em que o falso precisa “parecer verdadeiro” só pelo tempo suficiente para virar verdade no imaginário coletivo, o pico do estrago reputacional acontece antes da nota oficial. 


Você pode tentar desmentir, explicar, contextualizar. Mas o dano principal já aconteceu: o fake já foi consumido como realidade, difícil de ser esquecida.


Assim, a reputação passa a depender de processos, critérios, protocolos e um posicionamento previamente pensado. E de monitoramento contínuo. Sem isso, tudo vira reação. E reação não é estratégia.

“Sina de Ofélia” não é só um caso curioso. É um aviso.


É também uma coincidência trágica, nessa circunstância. Em Hamlet, Ofélia encarna o estereótipo da mulher dócil, obediente e conciliadora — aquela que silencia desejos próprios para atender às expectativas alheias. Submissa ao pai, leal ao príncipe e incapaz de confrontar a violência simbólica que a cerca, ela absorve conflitos que não cria. Seu colapso culmina no afogamento, uma morte passiva e ambígua, que simboliza o desaparecimento gradual de sua voz e de sua existência.

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