top of page

Você conversa com suas estantes? Memória cultural e livros

  • Marco Piquini
  • há 6 horas
  • 2 min de leitura
Estante de livros

Você conversa com suas estantes?


“Quando eu crescer, eu quero ser o Nelson Motta.” Sempre disse isso para mim mesmo. Ele é um cara boa-pinta, estiloso, erudito sem ser arrogante, polivalente (jornalista, crítico musical, escritor, compositor, apresentador de TV e muito mais). Sempre envolvido em projetos relevantes e marcantes. Acompanho tudo o que ele faz, inclusive suas redes sociais.


Em um post recente, ele diz ter “desapegado” de seus livros e discos de forma radical. Deu tudo embora. Seus mais de 700 livros sobre música brasileira e mundial foram doados para o Museu da Imagem e do Som, que terá, agora, a “Coleção Nelson Motta” (ideia bacana, essa). Livros novos que ele lê e não gosta, manda embora. Os bons, doa a amigos. “Para quê ficar com tudo isso em casa?”, ele pergunta. Reconheço as razões do Nelson, mas olho para minhas estantes e penso: ele não conversa mais com os livros.


Pois, quando passeio o olhar pelas estantes, travo diálogos íntimos com as fileiras de lombadas que me encaram de volta. As biografias do John Lennon e Paul McCartney, lado a lado, me fazem lembrar dos dois e dos Beatles e em tudo que eles representaram para o mundo e para mim, em particular. “2666”, do Bolaño, me faz repensar, sempre, na violência machista e homicida da América Latina e me pergunto: quando vamos nos livrar disso? 


Ao descrever o avanço dos americanos, quilômetro a quilômetro, das praias da Normandia até Berlim, registrando cada passo por meio de relatos em viva-voz de centenas de sobreviventes que entrevistou, Ambrose apresenta em “Soldados e Cidadãos” uma reportagem histórica magnífica que nos revela o horror da guerra, em meio ao medo e desespero humanos frente à catástrofe da morte violenta inexplicável.


Outros me fazem pensar no ciclo histórico de trágicas repetições, como “1984”, do Orwell, escrito em 1948 (ele só inverteu os dois últimos algarismos do ano para titular o livro) e que mantém seu brilho eterno. Sua previsão de um mundo sob o controle de um Big Brother onipresente e dividido em três grandes potências permanentemente em conflito: Oceania, que seria as Américas; a Eurásia, com Europa e Rússia; e Lestásia, englobando China e Japão. Tudo é assustadoramente parecido com o que vivemos hoje.


Há interações divertidas também, como nos 12 volumes de crônicas do insuperável Nelson Rodrigues, compiladas pelo Ruy Castro, que explicam, de forma irônica, nossas verdades e contradições. Ou “O Clube do Livro”, de Luzia de Maria, que nos conta como a leitura é, afinal, a chave para o autoconhecimento e a alegria de viver. 


Mesmo com os não lidos eu converso. Eles me desafiam: “E aí, quando vai chegar a minha hora?” Calma, respondo, antecipando o prazer que me espera. 

Comentários


Posts Recentes
Arquivo

FALE CONOSCO

Pronto para acelerar a mudança na sua empresa?
piquini@piquini.com.br

Tel: (31) 98769-2704
  • LinkedIn
  • Instagram
  • Facebook Clean
Logotipo_Piquini_Negativo branco.png
1.png
bandeiras.png
2.png

Mensagem enviada com sucesso. Em breve, entraremos em contato com você.

bottom of page