Cópia de O precursor dos pichadores
- Marco Piquini
- há 8 horas
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Há uns 50 anos, bastante tempo, quem andava pelas precárias e poeirentas estradas do Brasil frequentemente dava de cara com uma pichação feita em barrancos, em latões, nas paredes de construções abandonadas, atrás de placas de sinalização, debaixo de viadutos, muros, ou seja, em qualquer lugar em que desse para escrever, uma frase enigmática: “CÃO FILA KM26”, marcada em pinceladas grossas de tinta branca. Às vezes, vinha resumida: “FILA K26”.
A coisa era onipresente: a pichação foi vista até no porto fluvial de Manaus. E era um mistério. Ganhou fama e status ao ser capa do Anuário Brasileiro de Propaganda, uma prestigiosa publicação da época. Então, começaram a sair reportagens. Em 1977, a poderosa revista Veja dedicou uma página inteira ao assunto, revelando o mistério.
Tudo era obra de Antenor (“Tozinho”) Lara Campos, um criador de cães da raça Fila Brasileiro, um animal grande e feroz, que possuía um canil localizado em uma ilha particular no meio da Represa Billings, em São Bernardo do Campo (SP), cujo acesso se dava por uma pontezinha de madeira ao final de um caminho de terra exatamente no quilômetro 26 da Estrada do Alvarenga, na área rural da cidade. Sozinho, ele circulava com uma velha caminhonete escrevendo sua mensagem onde encontrasse espaço, sendo hoje considerado o precursor dos pichadores no Brasil.
Quando soube que o responsável pela enigmática mensagem era da cidade onde nasci e morava, aquilo virou uma obsessão. Eu “tinha que conhecer” a figura. Quando comecei a trabalhar para a Folha de São Bernardo, no comecinho da carreira, decidi encontrá-lo pessoalmente para fazer uma reportagem. E lá fui eu, acompanhado de meu primo Luiz Pequini Neto. O lugar foi difícil de achar e só chegamos lá no finalzinho do dia, já escurecendo.
Membro de uma família de posses (“dinheiro antigo”, a gente falava), Tozinho era um “outcast”. Vivia sozinho. Grandalhão, gordão, careca, tinha dentes só de um lado da boca e se vestia com roupas velhas e gastas. O canil era uma sujeirada só. O fedor era insuportável. Ele nos recebeu meio desconfiado e andava para lá e para cá no meio da cachorrada, que latia sem parar. Estava preocupado: “A lua vai mudar hoje”, explicou, sem que entendêssemos nada.
E então, de repente, entendemos. Enquanto conversávamos com ele, uma cadela gigante começou a dar à luz em pé. “Poff”, caiu um cachorrinho no chão. “Poff”, outro. Ele saiu correndo, pegou os filhotinhos pelo pescoço e sacudiu-os para reavivá-los e puxou a cadela para dentro de uma casinha.
Nós? Saímos de lá correndo!





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