O maior vendedor de carros que conheci
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Carlos Alberto Oliveira Andrade e uma lição de vendas
O sedan 21 parou atravessado na Av. Ibirapuera, defronte ao showroom da Renault, às seis horas da tarde de sexta-feira, interrompendo o trânsito. O motorista saiu do carro, fechou a porta com o controle remoto (acho que o 21 foi o primeiro modelo com esse recurso), jogou as chaves em um arbusto em frente à loja e gritou, com voz trêmula: “Podem ficar com esse carro.” Virou as costas, entrou em um taxi que o esperava e sumiu.
Foi um bafafá. Primeiro, todo mundo de quatro procurando a chave do 21 no jardim. Depois, um bate-boca acalorado sobre o que tinha acontecido. Resultado: saímos de lá com reunião convocada para o dia seguinte, sábado, às 8h da manhã, com o Dr. Carlos Alberto Oliveira Andrade, o “Caoa” em pessoa, o importador Renault no Brasil.
Na hora marcada, ele chegou e disparou perguntas. Era um problema na eletrônica do carro, novidade no Brasil na época. Várias broncas depois, o Dr. pediu para que ligassem para o proprietário do 21.
Sentado em um sofá da grande sala, pude assistir toda a cena. Havia sido contratado por ele como assessor de imprensa da Renault menos de 24 horas depois de ter saído do Estadão. Não sei como ele soube, mas, um dia depois de entregar minha carta de demissão, ele me ligou e me ofereceu o emprego. Quando ele começou a falar com o furioso proprietário do 21, eu devia ter umas três semanas na casa, onde fiquei por oito meses, até ir para a Fiat.
Com um daqueles celulares grandões do começo da telefonia móvel, ele ouviu o cliente desabafar o que tinha entalado na garganta, andando para lá e para cá, o jeito típico dele falar ao telefone. Era a quinta vez que o carro dava problema. Em um momento, o Dr. Carlos Alberto perguntou: “Terminou? Deixe-me falar com sua mulher, porque o senhor está muito nervoso.” Quando ela atendeu, ele começou assim: “Meu pai costumava dizer: me dê mil cabeças de gado para cuidar, mas não me dê três cabeças de gente, porque gente não tem jeito.”
Fez um aceno de mão e pediu que saíssemos da sala. Ao fechar a porta atrás de mim, vi que ele já estava falando e andando para lá e para cá de novo. Quase uma hora depois, ele abre a porta, chama o motorista e diz que estava indo para casa. Nos olhamos curiosos. “E aí, como ficou?”, perguntamos. “Tudo certo, acabei de vender um Twingo para ela”, respondeu, e abriu um sorriso. “Mas vamos arrumar aquele 21”, ordenou.
Polêmico e notável do seu jeito, amado e odiado, o Dr. Caoa vendia Ford, Renault, Subaru, Hyundai, Cherry e outras marcas. Chegou a ser também fabricante. Vender carros era com ele.
Esse texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Confira, nos links abaixo, outros textos do Piquini sobre temas relacionados.




