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Como virei jornalista: uma história de escolha e acaso

  • 25 de abr.
  • 2 min de leitura
Como virei jornalista: uma história de escolha e acaso

1975. Fazia o colegial no Objetivo em São Paulo e vivia “fora do mundo”. Um dia, meu primo Luiz me perguntou: “O que você vai prestar no vestibular?” Fiquei intrigado: eu nem sabia o que era vestibular. Acabei descobrindo que seria dali a cinco meses e, pela primeira vez, me questionei sobre uma futura profissão. Estudava em uma turma de Exatas, mas engenheiro eu não seria. De matemática e física eu não entendia nada. Gostava mesmo de história. Naquele devaneio, cravei: quero ser arquiteto.


A inscrição para o vestibular se fazia no primeiro andar de um predinho da Avenida Angélica, com acesso por uma escadaria verde, comprida e estreita. Preenchi os formulários, paguei as taxas e desci com o protocolo na mão. Só então notei que em um poste defronte à porta havia um cartaz com a lista dos cursos mais disputados. Arquitetura estava perto do topo, com uns 70 candidatos por vaga. Descobri, ali, de forma cristalina, que jamais seria um arquiteto.


Revisei a lista de baixo para cima. Comunicação era o antepenúltimo curso mais procurado, três candidatos por vaga, ou dois. Pensei: “Já li alguns romances e sou bom de redação”. Virei-me, subi as escadas, refiz a inscrição.


Chegou o grande dia. A prova começava às 8 horas num colégio perto da Estação São Judas do Metrô. Com a família em férias na praia, eu e meu pai estávamos sozinhos em casa. São Bernardo não era longe e havíamos combinado de acordar às 6 horas para sair com calma. Acertar o relógio ficou por minha conta, mas quando acordei já eram 7 e pouco. Entrei em pânico. Chamei meu pai, que gritou: “Se troca no carro!” Catei roupas e documentos e corri atrás dele, que disparou na minha frente com chinelões tipo franciscano e o pijama de bermudinha e camisa de mangas curtas, o favorito dele.


Entramos no poderoso Corcel GT azul, carro que ele adorava e que usou até se desmanchar em ferrugem. Tinha faixas pretas nas laterais e um volante esportivo. Saímos “na maior volada”, como se dizia. No caminho, ele passou sinais fechados, fez ultrapassagens irresponsáveis e até trafegou sobre a calçada de um quarteirão por causa do trânsito parado. Chegamos às 8 em ponto e eu entrei com as portas do local se fechando por trás de mim.

Ao terminar a prova, tinha certeza de que teria de fazer novo vestibular no ano seguinte. Mas por sorte aquele foi o primeiro com prova de redação e “me salvei”. Semanas depois, recebi a notícia inacreditável: estava na terceira chamada da Faculdade de Comunicação da FAAP.


Acabei escolhendo a especialização em jornalismo. Por quê? Porque para mim, aqueles foram anos reveladores. Minha cabeça “abriu”. Muito rock’n’roll, humanismo, surrealismo e outros baratos. E naquela fase da “abertura política” promovida pelo governo militar, me envolvi com o movimento estudantil e até fui presidente de Diretório Acadêmico. E não havia dúvida: era mais “libertário” ser jornalista do que ser publicitário.


Este texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Se quiser continuar a leitura, veja outros textos relacionados nos links abaixo.

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