Fiat Tempra: um lançamento inesquecível na Sicília
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Um lançamento para lá de especial
Deu para perceber que aquela viagem seria especial. Iríamos para Taormina, histórica cidade à beira-mar na Sicília, para o lançamento do Fiat Tempra, em 1990, um ano antes do carro chegar ao Brasil. O avião não era qualquer um: os 12 jornalistas que partiram de Londres embarcaram no jato particular do poderoso chefão Gianni Agnelli, presidente do grupo Fiat mundial.
No lugar de assentos normais, havia duas poltronas em couro branco que se estendiam pelo comprimento da aeronave, uma de frente para a outra. Lá pelas tantas, elegantes aeromoças levantaram o tapete e um sistema pantográfico fez subir uma grande mesa de madeira envernizada do meio do corredor, sobre a qual foram servidos queijos, frutas e bebidas. Comi morangos com chantili, todos bebemos espumante.
Na chegada à Sicília, o piloto deu duas voltas bem inclinadas sobre o vulcão Etna. Olhamos lá de cima diretamente dentro da cratera. Na última volta, bateu um ventão na barriga do avião e pareceu que o bicho ia virar de ponta-cabeça.
Nos hospedamos em um antigo convento adaptado para hotel de luxo, encarapitado sobre um paredão de rocha. Da varanda do meu quarto, eu via o mar, lá embaixo, quebrando nas pedras. As paredes tinham afrescos. Jantamos sob candelabros em mesas compridas de madeira, um cenário medieval.
No dia seguinte, em duplas, os jornalistas saíram dirigindo o Tempra para o interior da ilha. Fui em um modelo azul-marinho metálico, com um colega tcheco que não falava inglês. Cruzamos uma área aberta, coberta de cascalho claro, grama rala, algumas árvores, montanhas e muros de pedra. Uns cem quilômetros depois, chegamos a um casarão de madeira cinza-escura, no meio do nada, banhado de sol, vento e silêncio. Lá dentro, junto com água e café, havia sobre a mesa central uma cesta de grandes laranjas escuras e maduras, que eram descascadas por garçons e oferecidas aos convidados. O cheiro das frutas enchia o lugar.
De volta a Taormina, participamos da conferência de imprensa de praxe. Ainda hoje tenho “diapositivos” do press-kit. Fui o primeiro jornalista brasileiro a dirigir e escrever sobre o carro.
Depois, saí a passear pela cidade. Em todas as lojinhas havia marionetes de Orlando Furioso, personagem de um famoso poema italiano. Almocei sob árvores de uma praça. O dono de uma loja sentou-se para conversar e me convenceu a comprar, por uma fortuna, um bule e xícaras lindas de porcelana com pintura em mosaico. “Decorato a mano in oro zecchino”, diz a etiqueta. Decorada a mão com ouro puro. Será?




