O primeiro importado a gente nunca esquece
- há 2 horas
- 2 min de leitura

Hoje tem tanto carro importado por aí que eu parei de prestar atenção. Mas muito antes da abertura e da globalização, quando importar era proibido, os carros vindos de fora eram um acontecimento extraterrestre. E em um dia, em 1969, meu pai apareceu em casa com um Impala SS duas portas.
Foi comprado de um dono de posto de gasolina e chegou com a notável distinção de que “era lavado todos os dias”. Era vermelho com teto de vinil preto, comprido, baixo, cheio de cromados, bancos de couro preto, câmbio automático e direção hidráulica, novidades na época. Não havia colunas entre as janelas: com os vidros abaixados ficava um vão aberto de ponta a ponta. Tinha um toca-cartuchos, que eram do tamanho de fitas VHS. Numa caixa de sapatos cheia de cartuchos que veio junto havia um do Ray Conniff, que foi o que mais tocou.
Logo que chegou, embarcamos numa aventurosa viagem até o Paraguai. O carro na estrada era uma sensação. Quando parávamos em restaurantes muitas pessoas vinham abordar meu pai, querendo comprar o Impala. “Te dou minha Variant mais um sítio”, foi uma das muitas ofertas que escutei.
O carrão entrou para o folclore da família. No dia em que o Brasil ganhou da Itália em 1970, no jogo do Tri, passeamos pela cidade com o porta-malas aberto, eu, meus irmãos e amigos sentados lá atrás com bandeiras e apitos. Minha mãe usava o carro no dia a dia, levava a gente na escola. Um dia ele pegou fogo, logo apagado por um conhecido da família que passava. O incidente não teve maiores consequências, mas foi um prenúncio: a partir de então a decadência abateu-se sobre ele.
A manutenção era difícil, o motorzão V8 bebia em decalitros e mesmo depois de uma minirreforma, ele terminou, coitado, estacionado em frente de casa, com mato crescendo debaixo dele. Um jornal publicou uma foto do carro abandonado, pedindo providências à prefeitura.
Quando tirei carta de motorista em 1976, o Impalão ganhou uma rápida e gloriosa segunda vida. Um mecânico trocou a bateria, recolocou óleo no câmbio automático e na direção hidráulica. Jogou um pouco de gasolina em cima do carburador e o carro pegou. O radiador vazava, o que me obrigava a andar com um garrafão de água para completar de vez em quando, para o carro não ferver.
Eu ia até a casa da namorada, onde todo mundo se reunia, e era sempre um sucesso. Mas em breve o carrão voltou para o meio-fio e enferrujou de vez. Um primo teve a ideia de desmontar o carro e usar o motor numa lancha. O carrão foi embora. Não tenho a menor ideia do que aconteceu. A tal lancha nunca apareceu.




