A melhor reportagem que nunca escrevi
- há 2 dias
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A ideia era acompanhar a viagem de um “cegonheiro”, aqueles caminhoneiros que transportam automóveis em carretas cegonhas. Eu só não sabia que aquela seria a viagem mais infernal que fiz na vida.
São Bernardo do Campo, a Capital do Automóvel, tinha pátios e pátios dessas carretas e o presidente do sindicato dos cegonheiros, que conheci cobrindo as greves dos metalúrgicos do ABC nos anos 1980, me convidou para fazer a reportagem. “Você não sabe o que a gente sofre nas estradas do Brasil”, me disse o sindicalista. Aceitei.
Com um grupo de colegas, cheios de ideias e pouca experiência de vida, tínhamos criado um coletivo de jornalistas. Inventamos fazer um jornal para unir os cegonheiros. A viagem com o registro da dureza da vida na estrada seria reportagem de estreia. Era nosso primeiro cliente.
Tudo combinado, fiz uma trouxa de roupas, peguei um livro e, numa madrugada de muito nevoeiro em São Bernardo, embarquei em um Mercedes 1113 levando sete VW Passats para Belém. Expectativa: entre sete e nove dias, ida e volta.
Deu tudo errado desde o início. O caminhão, do próprio presidente do sindicato, era muito velho, sem potência. A cabine, recém-reformada, pintada de laranja, não tinha forração interna para deter o calor do motor. O assoalho derretia a sola do tênis. O barulho, a trepidação e o chacoalhar eram inacreditáveis.
Mas o maior problema foi o motorista. Mulherengo convicto, ele descobria os mais miseráveis, desolados e tristes pontos de prostituição da estrada. Ele se banhava nos rios ou nos postos e, ao final de todo dia, partia para suas aventuras. Eu me refugiava dentro de um dos Passats, onde passava as noites.
O pior foi na volta. O motorista decidiu pegar uma carga de retorno, para faturar o dele por fora. Em Paragominas, ele aceitou trazer 12 metros cúbicos de peroba cortada em dormentes para entregar em Nova Friburgo, no Rio. Uma temeridade: era peso demais para o caminhão.
Encurtando a história: o peso da madeira envergou a carreta. Os pneus traseiros começaram a estourar direto. No segundo dia descendo a Belém-Brasília já estávamos sem dinheiro para os consertos. Só nos livramos porque outro cegonheiro, apiedado de nossa situação, me emprestou uma grana. Só viajávamos à noite para preservar os pneus e comíamos uma vez por dia. Quase não conseguimos subir a serra até Friburgo.
Retornamos a São Bernardo 22 dias depois da partida. Minha mãe achou que eu tinha morrido. O presidente quase matou o motorista. Pior: não me pagou. Nunca escrevi a matéria. Ela teria sido sensacional.
Este texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Confira, nos links abaixo, outros textos do Piquini sobre temas relacionados.




