Terezinha
- há 13 horas
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O telefonema inesperado de Chacrinha para um jornalista
Por volta de 1979 ou 1980, eu era jornalista-aprendiz na Folha de São Bernardo, que funcionava em uma casa ao lado da Igreja Matriz, onde se espremiam a administração, a redação e o balcão de anúncios. A sala dos jornalistas, úmida e escura, ficava ao fundo. Numa manhã qualquer eu estava lá, sozinho, lendo jornais velhos, quando toca o telefone. A recepcionista disse, antes de transferir a ligação: “É o Chacrinha”.
Atendi na maior animação. Não conversava com ele desde que fizemos o ginásio juntos no João Ramalho. O pai dele era dono da Lanchonete Apolo, na Marechal Deodoro, a um quarteirão da escola, onde produziam os próprios sorvetes à vista da molecada e onde serviam uma novidade irresistível: um shake de Coca-Cola e sorvete de chocolate, sugestivamente chamado de “Vaca Preta” (a versão que misturava Fanta com sorvete de creme era a “Vaca Amarela”). Virou “point”. A turma parava ali, a caminho de casa, para saborear o drinque e conversar nas mesinhas de fórmica branca.
O Abelardo, é claro, tinha o apelido inevitável: Chacrinha. Isso porque, para quem não sabe, o nome do Velho Guerreiro era Abelardo Barbosa. Por isso, ao atender ao telefone, exclamei todo alegre: “Fala Abelardo!” Mas alguém, do outro lado da linha, soou muito bravo, falando muito alto. Estranhei. O Abelardo sempre fora um gentleman.
“Mas quem está falando?”
“É o Chacrinha, porra!”
Foi um choque: era o próprio “homem da buzina”. E ele estava colérico. No show que ele havia feito na noite anterior em um clube da cidade, o fotógrafo do jornal, “enlouquecido” com as chacretes, havia tentado se aproximar delas o tempo todo e, ao final, havia invadido os camarins e tentado agarrar as moças. Acabou expulso do recinto, me contou ao telefone o ofendido Chacrinha, o verdadeiro, o original, desfiando aquela história maluca. Ele reclamou até cansar. E desligou.
Fiquei estático. Ouvi tudo calado, não falei meu nome, não disse a ele que eu era fã, nada. Não consegui articular uma frase. O tempo todo eu só pensava: “Cara, é o Chacrinha, ninguém vai acreditar”. E, claro, assim que ele desligou saí contando para todo mundo. E ninguém acreditou mesmo.
Nunca mais tomei uma “Vaca Preta”. E nunca esqueci o telefonema. Anos mais tarde, trabalhando no Diário do Grande ABC, nos plantões das tardes de sábado, os diagramadores puxavam uma TV sobre rodinhas de um dos “aquários” até o meio da redação e ligavam no Cassino do Chacrinha, só imagem, sem som. E todo mundo fingia que trabalhava enquanto espiava as inacreditáveis e sensuais chacretes dançando e rebolando.
Elas eram “rrrrrrealmente” irresistíveis.
“Terezinhaaaaa!”

