Anjos da guarda na redação
- há 3 horas
- 2 min de leitura

As lições de jornalismo aprendidas na redação do Estadão
Em 1993, na Economia do Estadão, a subeditora Nair Suzuki me pautou para uma matéria fora do comum. Em um dos mais inusitados e impactantes momentos da indústria automobilística brasileira, o presidente Itamar Franco sugeriu o relançamento do Fusca. A ideia é que um carro “popular” poderia promover o crescimento do país. O jornal queria uma comparação entre aquela iniciativa e o programa New Deal, do presidente Franklin D. Roosevelt, para reviver a economia dos EUA após o crack da bolsa americana de 1929.
Nair era perspicaz e percebeu minha hesitação. Japonesa, que às vezes usava cabelo crespo black power, jeito despojado, era de uma gentileza sem limites, me chamou, acendeu um cigarro e me orientou sobre estrutura e deu três ou quatro dicas precisas de como seguir adiante.
Me afundei no fabuloso arquivo do Estadão e manuseei jornais de 60 anos. Entrevistei economistas. Me sentei e escrevi. Entreguei as laudas datilografadas, fazendo figa. Nair pegou a papelada e entrou no aquário do editor-chefe Aluízio Maranhão. Minutos depois, ela sai de lá e vem em direção à minha mesa, com o dedo em riste e um sorriso: “Não falei?” Artigo aprovado de primeira.
Pouco tempo depois, a subeditora Cecília Thompson sugeriu uma história sobre o visionário engenheiro João do Amaral Gurgel, o mitológico fabricante de carros que tinha voltado ao noticiário por conta de um processo de credores rolando contra ele.
Eu já tinha entrevistado o Gurgel anos antes em sua casa em Rio Claro (eu e a minha mulher Vânia almoçamos com a família dele) para uma reportagem publicada na revista inglesa Autocar. O problema é que o Gurgel, falido, estava sumido. Descobri que ele vivia recluso em sua casa em São Paulo, doente, me disseram. Não consegui contato por telefone.
Escrevi ouvindo fontes próximas e entreguei o material para a Cecília. Ela leu e me chamou a uma mesa de canto. Com simpatia, mas firme e falando baixo, disse que a matéria estava ruim. Mas do jeito que ela explicou, dando ideias de como corrigir isso e aquilo, foi uma aula de jornalismo. Mergulhei no caso mais uma vez.
Escrevi uma carta à mão para o Gurgel lembrando de nosso encontro anterior. Fui, à noite, à casa dele e enfiei o envelope por debaixo da porta. Dias depois, entraram em contato. Familiares me forneceram informações cruciais e a matéria, reescrita, saiu em página inteira. Quando foi publicada, a Cecília veio até a minha mesa, com o jornal na mão, me cumprimentar.
Certas pessoas ensinam sem avisar que estão ensinando. Anjos da guarda da redação, Nair e Cecília eram assim.

