Aristocracia Corporativa
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Sergio Marchionne, Agnelli e os mitos da Fiat
Quando o chefão da Fiat Auto, Sergio Marchionne, visitou a Iveco em Sete Lagoas, em 2008, vivemos dias de intensa excitação. Chegamos a “maquiar” um auditório inteiro com panos pretos para esconder paredes que precisavam de uma pintura. Tamanha aflição era desnecessária: havíamos colocado em movimento um relançamento de marca, uma renovação de gama, uma arrancada comercial e uma ampliação acelerada da rede que, cinco anos depois, multiplicaria as vendas por 7 vezes e o market share por quase 4.
Para quem trabalhava no Grupo Fiat, Marchionne exalava aquela atração irresistível que os superexecutivos exercem no mundo corporativo. Autoridade sustentada por resultados espetaculares. Quando assumiu o cargo, em 2004, em meio à crise que a Fiat vivia na época, todos se perguntaram: “Sergio quem?” Um ano depois, ele conseguiu fazer a GM pagar US$ 2 bi para sair de uma parceria que paralisava a empresa. Conquistou a admiração de todos. Ele sempre parecia ter uma estratégia infalível.
Competência não pode faltar a esses fenômenos corporativos, mas às vezes junta-se a essa capacidade excepcional de entrega algo mais profundo, um charme inexplicável que nos afeta e que se sobrepõe a outros valores e criam dentro do universo das empresas, e de nós, verdadeiros mitos.
Como Luca Cordero di Montezemolo. Foi presidente da Ferrari, salvou a empresa da falência e, de quebra, ganhou cinco títulos de F1 seguidos com Michael Schumacher entre 2000 e 2004. Descendente de uma família nobre que servia à Casa Real de Saboia na Itália, tinha pose de príncipe (até hoje). Magro, cabelos longos para o padrão do setor, roupas impecáveis.
Uma vez, acompanhei-o em uma sessão de fotos realizada no hotel Ouro Minas, em BH. Quando propus que se sentasse em um elegante sofá de couro sobre um tapete de arabescos em um grande salão do hotel, ele hesitou, mas topou. Ali, sozinho, em meio àquele enorme ambiente, ele parecia mesmo o dono do mundo.
Mas se falamos de fascínio, o lendário Gianni Agnelli não teve concorrência no setor automotivo. Neto do fundador da Fiat e presidente da coisa toda entre 1966 e 2003 (quando morreu), seu poder de atração se equivalia ao de uma estrela de cinema. Nos anos 1980, como jornalista, vi-o duas vezes no salão de automóvel de Genebra (Suíça), a apenas 250 quilômetros de sua cidade natal, Turim.
Entre carros e flashes de fotógrafos, ele “navegava” sozinho, com aquela altivez de quem não precisa da aprovação de ninguém, combinando luxo, poder e autonomia. Na primeira vez, procurei checar se, de fato, ele usava o relógio sobre o punho da camisa. Sim, usava. Rebeldia de quem podia fazer qualquer coisa.




