Minha experiência com o Senna
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Ayrton Senna McLaren: bastidores em Silverstone
A McLaren iria realizar o shakedown do MP4/7, o primeiro modelo com o câmbio semiautomático eletrônico acionado pelas “borboletas” por detrás do volante. Hoje comum no mercado, a tecnologia, naquele comecinho de 1992, ainda era um mistério. Nem os pilotos escondiam a desconfiança.
Eu morava na Inglaterra e vivia fazendo frilas. O Estadão estava sem correspondente de F1 definido e a Agência Estado me pediu para ir até Silverstone cobrir o “teste de inverno” da McLaren com o Ayrton Senna. Lá fui eu, hora e meia de trem, dia sombrio, úmido, nuvens carregadas. Cheguei ao autódromo às 10h e logo percebi que tinha cometido um erro fatal: não fui preparado para o frio. Estava com um casaquinho leve e sapato de sola de couro. Em poucos minutos estava congelado.
Em uma área próxima dos boxes, aberta ao vento, o carro do Senna estava todo desmontado. A seção central do carro estava sobre um cavalete, sem os eixos. O motor Honda, sozinho, sobre outro cavalete. O Senna chegou, ao meio-dia. Ele não falou com ninguém, se sentou no cockpit e ficou lá mais de meia hora, com um engenheiro ao lado, acertando a posição do banco, um milímetro para cá, um milímetro para lá.
Não acontecia nada, até que um engenheiro japonês da Honda conectou um computador e uns fiozinhos ao motor sobre o outro cavalete e “vruóóóóóuummmm”, ligou o V12! Pela primeira vez, escutei o motor de um F1 a três metros de distância. A vibração subiu da espinha ao cérebro. Não dá para esquecer. Começaram a montar o carro. Então, o Senna reapareceu de macacão e o capacete amarelo, subiu no bicho e deu duas ou três voltas, no máximo, e acabou o treino!
Já eram umas quatro da tarde, estava ficando escuro e eu já tinha virado picolé quando chegou o grande momento. Lá veio o grande Senna conversar com os jornalistas brasileiros. Mas o que era aquilo?
Eu olhava para o Senna e via uma luz verde em volta dele, como um rabisco feito em torno da silhueta com um daqueles lápis marcadores de texto. Meio abestalhado, consegui fazer uma pergunta: “Quando você aperta a borboleta a 300 por hora, não dá medo de que a coisa não funcione?” Senna sorriu e disse que confiava na engenharia.
Mudei de posição e a luz continuava lá. Perguntei para um colega se ele também via aquela luz. Ele me observou com uma cara esquisita e depois respondeu, rindo: “Você é que está roxo de frio!”
E isso foi tudo. Voltei para casa e escrevi a matéria que foi publicada no Estadão e no JT no dia seguinte, assinada “Marco Piquini, de Londres”. E essa foi minha experiência com o Senna.




