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Meu escritório em Sisters Avenue

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura
Escritório improvisado montado em apartamento em Londres durante os anos 1980, com bancada de trabalho, telefone de parede, arquivos físicos e equipamentos utilizados por correspondente internacional.

Meu escritório em Londres e a liberdade de escrever


Em Londres a gente pegava coisas na rua, pura reciclagem. Uma vez, achamos uma dessas mesas redondas com laterais que se dobram em asas e viram um móvel de canto. Compramos duas cadeiras e montamos nossa charmosa sala de jantar de dois metros quadrados em frente à janela. Outra vez, peguei em uma caçamba uma luminária metálica de dois metros. Levei para casa, em Sisters Avenue, pensando em um recuo de 30 centímetros de fundura na extensão da parede, à esquerda da entrada. A luminária encaixou ali com um centímetro de folga de cada lado!


Então, tive uma ideia. Tirei as medidas e, em uma loja Do It Yourself perto de Clapham Junction, comprei a lâmpada que faltava, madeira cortada e aqueles trilhos de parede para encaixe de suportes de estantes. Com tudo isso, montei uma bancada de trabalho com duas prateleiras em cima e outra embaixo do tampo da mesa. Pendurei a luminária por debaixo da estante mais baixa, logo acima da minha cabeça.


Ali eu tinha tudo ao alcance da mão. Lápis e canetas, tesoura, cola, clipes, elásticos, furador de papel, fita adesiva, uma edição do "Médio" do Aurélio, o dicionário que não saía da mesa de ninguém, essas coisas indispensáveis antes da chegada dos computadores. Exatamente nessa época apareceu o Amstrad 8256: um processador de texto, com tela verde e slot de disquete para arquivos. Tinha até uma impressorinha que vinha junto com o equipamento. Ele aposentou minha Olivetti Lettera 35.


O negócio ficou chique quando comprei o fax, que coloquei à direita, em cima de um gaveteiro de metal, que alguém desaparafusou de uma mesa tipo Securit e jogou no lixo, e que eu, sem cerimônia, peguei e arrastei para casa.

Na prateleira sob a mesa repousavam umas 50 pastas de papelão coloridas, meu arquivo físico. Dispostas em ordem alfabética, cada pasta era de uma marca, alcançando quase toda a indústria automobilística ocidental e japonesa, mais aquelas do lado de lá do Muro de Berlim, a Lada, por exemplo. Nelas eu guardava recortes de revistas, de jornal, press kits, fotografias em papel e em slides, mais um monte de coisas que a gente vai juntando em shows e feiras.


Na única foto que tenho desse arranjo, adoro o detalhe do telefone de parede: dá à cena toda um ar de coisa séria, o que era, de fato, porque ali comecei a ganhar dinheiro escrevendo. Outros detalhes visíveis: um vidro de geleia com moedas, moleskines, calculadora, mapa de Londres.

Com tudo isso, meu escritório em Sisters Avenue era ótimo. Uma cadeira giratória foi o detalhe final. Sentado nela, trabalhei por mais de três anos. Gastei muitas horas, dias e madrugadas nesse cantinho. Na verdade, sinto saudade. Nunca fui tão livre!


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