Vai pro gol!
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Futebol de botão: memórias de um gol inesquecível
Os idiomas refletem o mundo e as realidades das pessoas que os falam. No Brasil, o léxico do futebol transcende as “quatro linhas” e faz parte da gramática das relações sociais. Traduz desafios cotidianos. Se enfrentamos uma situação de pressão, estamos "na marca do pênalti". Damos uma “bola fora” se cometemos uma gafe. A pessoa é "escanteada" quando sai de um projeto. "Driblamos" dificuldades. Se quase fechamos um negócio, “a bola raspou a trave". “Balançamos a rede” se deu certo.
A importância do futebol no país não pode ser subestimada. “Que time você torce?” continua sendo um excelente quebra-gelo no mundo dos negócios. O impacto da Copa do Mundo está aí: expectativa gigante, contratos publicitários milionários, alterações de rotina por conta do calendário dos jogos.
Essa fixação começa cedo e chega em diversos formatos. Os campeonatos de futebol de botão foram, na minha infância, mais do que um divertimento: eram quase uma Copa do Mundo disputada toda semana.
Cada um tinha seu time. O meu era de botões pretos do Corinthians. Havia os verdes palmeirenses, os vermelhos são-paulinos, os brancos santistas. Às vezes, alguém aparecia com uma coisa exótica: eu mesmo tinha um time de botões brancos do Juventus, da Mooca, com escudos recortados da revista Placar.
O estádio era a garagem disponível. Os campos eram desenhados em placas de madeira feitas sob medida. Dividíamos 10 ou 12 colegas em chaves, uma pessoa marcava o tempo — etapas de cinco minutos, com virada de campo. Regras eram leis divinas. Se a baqueta encostasse no botão sem que ele se movesse, a jogada era encerrada. Não era possível reposicionar os botões enquanto o outro estivesse jogando. Se um botão tocasse o do adversário antes de bater na bola era falta. Batendo em dois, falta dupla e expulsão. E ninguém podia chutar a gol sem antes avisar, com um grito ameaçador: “Vai pro gol!”. O adversário corria para trás das traves de plástico para posicionar o goleiro.
Vivemos momentos épicos.
Paulo, meu irmão caçula — hoje PhD em física subatômica — era “café com leite”. Mas um dia, jogando com meus botões do Juventus, chegou milagrosamente à final contra o melhor jogador da turma, que durante a partida perdeu inúmeras chances de marcar.
No último segundo de jogo, com o placar em 0 a 0, deu escanteio para o Paulo cobrar. Só havia tempo para um toque e ele gritou: “Vai pro gol”.
Gol de escanteio? No botão?
Posicionado o goleiro, Paulo bateu. A bolinha resvalou em outro jogador do Juventus, fez um desvio de 90 graus e entrou no cantinho.
Paulo era o campeão.
Mais de 50 anos depois, ao relembrarmos o fato, ele revelou ter planejado o desvio da bolinha. Um dos mais memoráveis momentos esportivos de sua vida.




