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A pia inaugural

  • há 1 dia
  • 2 min de leitura
Primeiro emprego em Londres: a pia inaugural

Primeiro emprego em Londres: a pia inaugural


Antonio, um italiano que estudava física em Londres, me ajudou em meu primeiro emprego. Ele ocupava o quarto 10, no can

to diagonal oposto ao quarto 9, onde eu e a Vânia morávamos, no primeiro andar do casarão do 9, Windmill Drive, no meio do Clapham Common Park. Ele me levou até uma porta amarela no número 80 da Shaftesbury Avenue. Lá dentro, conheci Mr. Felix, nome inglês de outro italiano, Felice Pollano, que me arrumaria bicos avulsos pelos próximos três anos.


O primeiro foi para lavar louça no Villa Frascati. Ele escreveu o endereço em um envelopinho marrom e, em um cartão timbrado, o pagamento prometido: 110 libras por semana, três vezes o aluguel que pagávamos na época. Era a dois minutos da Hampstead Station, em uma casinha de dois andares. O staff entrava por uma viela por trás do prédio. Cheguei às seis da tarde, atrasado e nervoso e, no escuro, não soube decifrar o funcionamento da maçaneta. Forcei e quebrei-a na minha mão, no instante em que o dono do restaurante, Mr. Pino, abriu a porta por dentro, aos berros. Falei washing up duas vezes até ele entender que eu era o novo lavador de pratos. Ele me empurrou lá para dentro.


O Villa Frascati servia massas rápidas com molhos feitos na hora. Fritavam grandes bifes e peixes também. Para tudo, usavam pesadas frigideiras com cabos de ferro que chegavam pelando. Eu tinha que pegá-las com um pano, pôr na pia, lavar e repassar ao ajudante, um indiano. O pano não isolava o calor. Logo estava com as mãos queimadas. A pia estava sempre cheia de pratos com água suja cobrindo tudo. Buscando alguma coisa lá embaixo, enfiei o dente de um garfo por debaixo da unha de um dedo, uma dor lancinante. Tudo no primeiro dia.


O cozinheiro era um cara mais velho, da Sardenha, baixo e gordinho. Chegava do mercado com as sacolas, levantava um tomate em frente à luz e se entusiasmava: “Guarda che belo questo pomodoro”. No fim da noite, enquanto eu e o indiano limpávamos a cozinha, ele entornava todas no bar do restaurante. Uma manhã, chegou envergonhado e confuso: tinha perdido a dentadura. O indiano disse que ele estava bêbado e tinha deixado ela cair dentro do molho de tomate. Até ele riu da piada, mas mais tarde eu o vi vasculhando o panelão com uma peneira.


Quando não tinha nada para fazer, Mr. Pino me chamava para encher saleiros e dobrar guardanapos no primeiro andar, entre pilhas de toalhas e caixas de vinho. O cara era superpão-duro: guardava o queijo parmesão dentro de uma gaveta com chave. Me demitiu uns 40 dias depois. Ele foi direto: eu não dava conta. Com o tempo, acabei aprendendo. Até hoje lavo louça muito bem. Sou um craque.


Esse texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Confira, nos links abaixo, outros textos do Piquini sobre temas relacionados.

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