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Escalpelamento Literário

  • há 2 dias
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Escalpelamento Literário

Memórias da Livraria Siciliano em São Bernardo

Meus livros possuem “chaves de memória”. Pode ser uma capa, uma anotação rabiscada à margem, o ingresso de um jogo de futebol de 30 anos atrás usado como marcador de página. Quando eu os folheio e bato o olho em um desses vestígios, em um passe de mágica roda um filme em minha cabeça, com detalhes fulgurantes na forma de pessoas, palavras, cores, cheiros, sentimentos.


Admirando uma edição antiga do livro Casa Grande & Senzala, do Gilberto Freire, noto o canhoto da etiqueta da Livraria Siciliano, daquelas em que um dos lados é serrilhado para se destacar a parte onde vinha anotado o preço. Pimba! Fui “teletransportado” para a livraria que ficava na esquina da Marechal Deodoro com Dr. Fláquer, em São Bernardo. Ficava no quarteirão onde eu morava, perto da Igreja Matriz e a 20 metros do Cine São Bernardo, onde assisti muito filme de Maciste.


A livraria era bastante completa: gibis, revistas, romances, livros escolares, técnicos, tudo. Eu ia sempre lá, mesmo depois de termos nos mudado para outro bairro. Durante anos os funcionários permaneceram os mesmos. Todos me conheciam e eu circulava livremente. Quando era bem moleque, aproveitava a liberdade para roubar revistas de mulher pelada.


O relacionamento ficou mais profissional quando eu trabalhei na Gazeta de São Bernardo, que funcionava em um sobradinho na esquina de cima, na rua João Pessoa. A Siciliano fornecia um livro por semana em permuta por um pequeno espaço publicitário no jornal. Eu escolhia o livro, geralmente um romance, dava uma geral na capa, nas orelhas, lia um trecho ou outro e escrevia um resumo bem fajuto para publicar. 


Naquele jornal eu fazia tudo: pauta, reportagem, redação, edição. Trabalhava que nem maluco nas quintas e sextas, fechando oito páginas standard por semana. Sexta de tarde, juntava tudo (laudas, fotos, releases de agências, artigos dos colunistas e o editorial escrito pelo dono do jornal) e partia para a Gazeta do Ipiranga, em São Paulo, onde era feita diagramação. Depois, esperava os fotolitos ficarem prontos e eu mesmo os levava para a gráfica do São Paulo Shimbum, o jornal japonês que ficava no bairro Cambuci, já no sábado de madrugada.


Quando o diagramador chegava na página cultural, ele não tinha dúvida: pegava o livro da semana, rasgava a capa e a colava numa lauda onde anotava as medidas para o escaneamento. Foi mais de um ano nesse sofrimento, um escalpelamento literário feito de forma sistemática, sem dó nem piedade. Lembro até hoje o primeiro livro que passou pelo brutal processo: “O Pássaro Pintado”, de Jerzy Kosinsky. 


Este texto faz parte da editoria Histórias do Piquini, uma série de memórias e bastidores que misturam ofício, estrada e repertório. Se quiser continuar a leitura, veja outros textos relacionados nos links abaixo.

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