O sentido das coisas
- há 9 horas
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Quando eu era bem pequeno, molequinho, morávamos em uma casa atrás do escritório de despachante de meu pai, em São Bernardo. Ele chegava à noite, batia na porta e, antes que pudéssemos perguntar quem era, ele falava com voz grossa, do lado de fora: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?” Eu e meus irmãozinhos ficávamos quietos, esperando a continuidade de um roteiro que conhecíamos muito bem e que sempre terminava com ele mesmo respondendo: “O Sombra sabe!”. E soltava uma gargalhada tenebrosa.
Eu adorava aquele miniteatro, no qual meu pai imitava o personagem de uma novela de rádio americana, adaptada para o Brasil, que ele escutava quando era adolescente. O “Sombra” era um milionário que, nas horas vagas, combatia o crime. Seu superpoder era o de se tornar invisível ao perseguir os bandidos. Ele também “lia pensamentos”, com uma técnica aprendida depois de estudar “ocultismo” no Himalaia, como corria a história. Daí a frase. A gargalhada assustadora, diz a lenda, foi invenção de Orson Welles, que interpretava o personagem na versão americana, e passou a ser seguida à risca pelos diversos intérpretes das retransmissões mundiais do programa.
Uns trinta anos depois, eu folheava o delicioso “1958, O Ano Que Não Devia Terminar”, do jornalista e cronista carioca Joaquim Ferreira dos Santos, enquanto aguardava um voo na sala de espera da TAM em Congonhas, na época em que aquele ambiente tinha um piano de cauda, quitutes e drinques (muito chic! Alguém ainda lembra disso?).
O livro defende, com humor, várias razões que fizeram de 1958 um “ano mágico” para o Brasil. A seleção ganhar sua primeira Copa do Mundo é um exemplo. Outro: Adalgisa Colombo ficou em segundo lugar no concurso Miss Universo e assombrou o mundo com um truque: ela passava óleo Johnson nas pernas, que brilhavam na passarela.
No meio da leitura, me deparei em um comentário de rodapé com a reprodução daquela frase famosa (“Quem sabe o mal...”). Não tive dúvidas: saquei de meu celular e liguei para meu pai. Quando ele atendeu, antes de dizer alô ou boa noite, eu perguntei na lata: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?” Depois de um segundo de silêncio, ele respondeu: “O Sombra sabe!”
Desfrutamos uns cinco minutos de lembranças em uma daquelas conversas nas quais o assunto realmente não importa, em que sorrisos se misturam com lágrimas de felicidade espontânea. Um daqueles fugazes momentos que dão sentido às coisas.




