Pertencimento é ser aceito como você é

Semanas atrás, descrevi aqui (link) o sentimento que tive ao reencontrar-me com colegas com quem trabalhei no Grupo Fiat por 20 anos. Falava em pertencimento e disse: "...é bom demais sentir-se conectado a uma história, a um ambiente. Ser aceito como um igual. Ter a percepção de que sua presença realmente importa. Ser visto e valorizado simplesmente por quem você é."
"Ser valorizado por quem você é." Publiquei assim, mas a frase pareceu, na hora, não se encaixar. Fiquei pensando sobre isso. Nenhuma empresa promove pertencimento com a entrega do crachá ou um kit de boas-vindas. Então, o que nos faz sentir que pertencemos a um lugar?
Tempo? É uma resposta “fácil”, mas não funciona assim para todo mundo. Tem gente que fica anos em uma empresa e... nada. E há pessoas que sentem ter encontrado um lugar com poucos meses de casa. O tempo, sozinho, não responde.
Valores? O convívio em organizações é regido por valores que muitas vezes podem exigir de você uma adaptação às circunstâncias. Você muda para ser aceito. Esse "encaixe" pede vigilância: "preciso continuar parecendo o que finjo ser." Então, mudar não é pertencer.
Mas e se pertencimento significa uma coisa de mão dupla, algo recíproco? Não basta a empresa aceitá-lo como você é; você precisa aceitar a empresa como ela é. Requer, por exemplo, que os seus valores convirjam com os da empresa. E que as suas esquisitices, por um lado, e as peculiaridades da empresa, por outro, façam parte do pacote, exigindo ajustes mínimos.
Se o ambiente aceita você em sua essência, sem você precisar renunciar a si mesmo, e você aceita a empresa como ela é, isso lhe permite uma “navegação” no mundo corporativo com a autoconfiança que o encaixe nunca oferece. Pertencimento, assim, é descanso: posso ser quem sou, no automático.
Há algo que a empresa possa fazer para permitir que isso aconteça? Sim, mas não será uma campanha de cultura que vai construí-lo. Então, o que fazer?
Significa tolerar diferenças de estilo, opinião, forma de trabalhar (cada um é de um jeito). Reconhecer as pessoas pela trajetória, não só pela entrega. Comunicar a realidade da empresa como ela é, sem esconder dificuldade, erro, contradição. Dar segurança para o erro. E manter o vínculo mesmo quando a utilidade imediata acaba.
Isso explica o conceito expresso na frase que escrevi, num fluxo de pensamento: sentir-se valorizado por quem você é, na verdade, expressa o pertencimento perfeito, o que se busca lado a lado, aquele que se permite sem se impor.


