Cappuccino com o Rocky Marciano no Bar Italia de Londres

Tomei meu primeiro cappuccino de verdade em Londres, no famoso Bar Italia. O que me atraiu para dentro do bar foi o pôster do boxeador Rocky Marciano na parede, com duas luvas de boxe marrons, antigas, penduradas na moldura. Conhecia o Marciano por causa do meu pai, que era ligado em boxe. Aprendi a gostar com ele e, no boxe, os campeões do passado circulam como fantasmas em volta das lutas e lutadores.
Marciano foi o único campeão peso-pesado que nunca perdeu uma luta. Filho de imigrantes e ídolo histórico da comunidade italiana no mundo todo, ele era baixo, tinha braços curtos e, por isso, lutava quase embaixo do outro. Ele partia para cima o tempo todo e aguentava muita pancada. Tinha um soco que batizou de “Suzie Q”: fintava com um jab de esquerda e emendava direto de direita na cara do adversário. Pelos vídeos da época, dá para ver que os lutadores atingidos ruíam por dentro e desmoronavam como sacos de batatas.
Já o Bar Italia descobri sem querer. Um dia, li sobre a estreia do filme Batman do Tim Burton, no jornal The Independent. Foi o filme que deu início à franquia moderna, com Michael Keaton e Jack Nicholson, música do Prince. Uma das fotos da matéria era do Batmóvel. Que carro louco! No lugar do radiador, havia uma turbina de avião. As laterais traseiras eram asas de morcego. Pensei: “Dá matéria!”
Descobri a distribuidora do filme na cidade. Me prometeram o release e as fotos, mas eu tinha que ir buscar no escritório deles. Peguei o ônibus 88 até Trafalgar Square e andei a pé, 10 minutos, até a Frith Street, no Soho, onde recebi um grande envelope.
Ao sair, atravessei a rua e me vi bem na frente do simpático Bar Italia. O cheiro do café e as bandeirinhas penduradas no teto me chamaram a atenção. Entrei e vi o quadro do Marciano. Escolhi um cappuccino. Café forte, primeiro, leite fervido com espuma feita no vapor da máquina, com uma pitada de cacau em cima da espuma. Para mim, a receita definitiva. Ainda hoje recuso as variações com canela ou doses extras de chocolate. Aqui em Minas, há bares que colocam doce de leite na borda da xícara.
Abri o pacote e estudei o material de divulgação enquanto tomava o café. Fui escrevendo a matéria “de cabeça” no ônibus de volta para casa. Batuquei a matéria na máquina de escrever e enviei para o Brasil. A matéria de capa e página dupla no Jornal do Carro em 23 de agosto de 1989. Foi a primeira com as fotos do carro no Brasil, com chamada na capa do jornal: “Exclusiva”.
A foto do Marciano peguei no site do Bar Italia, ainda está aberto e operante.




