Um Gurgel muito doido

Ano: 1990. Toca o telefone e um cara falando um inglês cockney que demorei para sintonizar, me chamou de “mister Paquini” e disse que ele o dono do “gûrguel”. Tentei juntar as pontas. “I’m sorry, I don’t get it” e tal. Ele continuou falando e, lá no meio, saiu um “British Museum”, um “parking” e em seguida mais um “gûrguel”. Então eu lembrei!
Alguns meses antes Vânia e eu tínhamos ido a um evento no British Museum e, quando saímos, gastamos um tempão procurando meu Mercedes 72 que tinha deixado em um estacionamento subterrâneo. Andando em meio à escuridão tomei um susto: apareceu na minha frente um genuíno Gurgel X12, conversível, cinza escuro, daqueles com o estepe no capô.
Já tinha encontrado um Puma em Londres, caso que rendeu matéria histórica no Jornal do Carro, mas aquele Gurgel, com um dedo de poeira sobre o painel e os bancos, era uma aparição assombrada que desafiava qualquer lógica. Pensei em uma nova matéria. Deixei meu nome e telefone num papel preso ao limpador de para-brisa na vã expectativa de que o dono, se um dia voltasse ali, poderia ligar de volta.
Pois era ele agora no telefone. Marcamos um encontro num pub em Kensington. “Como te reconheço?” Ele respondeu que tinha cabelo roxo e se chamava Ron.
Na verdade, era uma cabeleira rastafari roxa e verde. O cara era um branquelo com jaqueta de corrente, jeans, coturnos, colares e pulseiras. Tomando uma rodada de cerveja vermelha expliquei que era jornalista brasileiro e que uma matéria com aquele carro me renderia 70 dólares, o que ele achou muito dinheiro.
Com aquele sotaque que me fazia perder quatro em cada dez palavras que ele dizia, Ron contou que uns três anos antes viajou de Londres para o País de Gales para revender um pacote de maconha jamaicana para o dono de uma fazenda. Foi a pé da estação de trem até a propriedade, sob chuva. Tocou um sino, ficou esperando e então viu, ao lado do portão, um lago cheio de flores flutuantes e, em meio a elas, um jipe semiafundado na água. Quando descobriu que o motor era VW e que a carroçaria não enferrujava, achou o máximo e acabou incluindo o Gurgel no negócio.
Conseguiu levar o carro até Londres e fazê-lo andar de novo. Regularizou documentos e usou o “gûrguel” para cima e para baixo nas ilhas britânicas até que entrou numa maré de azar. Ficou sem dinheiro para renovar a licença do carro. Decidiu abandoná-lo no estacionamento do British Museum. Ia lá de vez em quando matar saudades e, numa dessas, viu meu bilhete.
Ao nos despedirmos, ele me perguntou, meio sem jeito, se eu não queria comprar o jipe. Disse que não. Ele já esperava por essa resposta, sorriu, e voltou para dentro do bar.




