Quando jogávamos pedras nas startups
- há 18 horas
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No mundo de hoje, a cultura das startups, do empreendedor de garagem que almeja virar bilionário, é algo muito aceitável. É claro que a aventura de se criar, do nada, uma empresa e um produto revolucionários, pode dar errado. As histórias de fracasso são mais abundantes que as de sucesso. Mesmo assim, aplaudem-se aqueles que seguem esse caminho. Mas nem sempre esse tipo de coragem foi bem-vindo. Houve época em que a gente jogava pedra neles. O Fórmula 1 dos irmãos Fittipaldi é um desses casos.
Imagine a força que se precisa ter no coração para um piloto, no auge de seu sucesso na Fórmula 1, largar a certeza pela incógnita. Campeão em 1972 pela Lotus e em 1974 pela McLaren, o Emerson decidiu juntar-se a seu irmão Wilson para fazer um Fórmula 1 no Brasil. Loucura? Claro. Mas no começo a ideia causou um frisson no país.
Em outubro de 1974, o carro foi oficialmente apresentado no Salão Negro do Congresso Nacional. Na época eu estudava no Colégio Objetivo. Mais matava aula do que estudava. Para mim, caipira de São Bernardo, São Paulo era um playground. Íamos ver a obra do metrô na avenida Paulista, que era um buraco gigante. Descíamos até a Faria Lima para ver os Porsches na Dacon e depois voltávamos subindo a Augusta para comer, de vez em quando, um lance no Jack in the Box, namorar uns mocassins na loja do Adriano, coisas assim.
A gente curtia a Fórmula 1 porque o Emerson era um ídolo nacional. Meu pai até comprou óculos iguais aos dele. E um dia saiu a notícia de que o F1 brasileiro faria seu shakedown em Interlagos. Seria no dia seguinte e lá fomos nós, de ônibus. Chegamos bem cedinho em frente ao Portão 7 do autódromo, na hora em que um caminhão estacionou por ali. Havia cerca de 20 pessoas esperando.
Estava frio. Foi montada uma rampa na parte de trás do caminhão e, pela porta do baú, escorregou delicadamente para fora uma coisa pequena, prateada e brilhante. Praticamente um tubo de alumínio com quatro rodas. Parecia uma turbina. Amarraram uma fita de couro na frente do carro e o rebocaram para dentro do autódromo. Tudo demorou 15 minutos.
Disputar a mais competitiva categoria do automobilismo mundial era um sonho grande demais, como ainda é hoje. Com a inexperiência, quebras frequentes e dificuldades financeiras, os resultados não vieram. A frustração tomou conta e a mídia caiu de pau. Por causa do patrocínio da Copersucar, uma cooperativa sucroalcooleira, os gozadores chamavam o carro de “açucareiro”. O rótulo de “fracasso” foi colado no projeto.
Sob pedradas de todos os lados, a mais audaciosa startup do automobilismo brasileiro fechou as portas em 1982. Acontece. Mas é triste.




