A grandeza e a miudeza em nossas vidas
- há 23 horas
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A editoria de Cidades de um jornal é uma caixinha de surpresas. Do jeito que eu olho a coisa, ela é diferente das editorias de tema central (esportes, economia, polícia...). Essas acabam dando ao jornalista um “foco” que facilita o trabalho de enquadrar a notícia e relatá-la. Mas em Cidades, as grandezas e as miudezas da vida entram em cena de uma maneira mais nua e crua. As possibilidades de pauta explodem. Pode cair qualquer coisa no colo, o que exige do jornalista a flexibilidade de um contorcionista.
No Diário do Grande ABC, acabei me fixando na área sindical, porque quando trabalhei lá as greves dos metalúrgicos transformaram o ABC paulista no centro nervoso do Brasil. Mas quando precisavam de “braço”, os editores pegavam qualquer repórter que estivesse livre e, assim, num finzinho de tarde de uma sexta-feira fria de muita neblina e chuvisqueiro, fui escalado para averiguar a história de uma menina que havia se machucado em um parque de diversões.
Não havia fotógrafo disponível e fomos apenas eu e o motorista em um dos Fuscas do jornal a um bairro perdido entre Santo André e Mauá. Quando chegamos lá já estava escuro, mas deu para ver que o tal parquinho era, na verdade, um balanço e um carrossel, muito fajutos, pequenos e enferrujados, montados em uma área de terra de um loteamento. Ninguém à vista. Havia também um pequeno trailer de madeira, todo destrambelhado, onde se lia “Ingressos”. Lá dentro, encontrei um homem muito magro, de shorts e camiseta, apesar do frio, sentado em um banquinho, iluminado por uma lâmpada fraca que pendia do teto.
Expliquei a ele o que estava fazendo ali. Ele confirmou que a menina havia caído do balanço e batido a cabeça no chão, mas “não tinha saído sangue”. Perguntei se ele tinha autorização da prefeitura e ele respondeu: “Hã?”
Ele então destampou uma caixa de sapatos que tinha no colo e apareceram uns quatro ou cinco gatinhos muito pequenininhos lá dentro. O homem levantou a caixa e disse: “Não tenho nada para eles comerem, só tenho uma cebola para jantar.” O motorista, mais experiente que eu, falou baixinho atrás de mim: “Simbora, pauta furada.” Quando me despedi, ele me pediu um dinheiro para comprar leite para os bichinhos.
Passamos no centro de saúde mais próximo, onde ninguém sabia de nada. Não conseguimos achar o endereço da mãe e da menina. Chegamos ao jornal à noite, com 15 minutos para o fechamento. Não sabia o que pensar daquilo tudo. Disse para o editor que não tinha matéria. Até hoje lembro do olhar consternado do dono do parquinho, preocupado com os gatinhos.




