Zabaione em Battersea
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Em Londres, a gente não tinha dinheiro, isto é, não sobrava muito. Jantar fora só em ocasião muito especial. Quando chegavam os pagamentos do Brasil, por exemplo, a gente aproveitava para um momento de aconchego e, uma noite, fomos a um restaurante italiano com toalhas quadriculadas sobre as mesas e tudo o mais perto de casa, na avenida Battersea Rise, em Clapham Common.
Éramos uns poucos casais lá e, perto da hora de fechar, sobramos somente eu e a Vânia esticando a conversa e relaxando com os últimos golinhos da garrafa de vinho. Os garçons italianos estavam apressados para irem embora e um deles, a caráter (mullets, barba por fazer, camisa justa, manga dobrada até o bíceps, três botões desabotoados do colarinho para baixo, aventalzinho curto), veio ver se podiam fechar a conta. Pedimos o menu das sobremesas. Pintou aquele climão.
– “Ma che... questi teste di minchia non vanno via”, ouvi um deles dizer perto da cozinha.
Mesmo assim fizemos o pedido. Escolhemos pelo nome, sem saber o que era.
– “Zabaione, per favore.”
Somente a luz sobre a nossa mesa estava acesa e, mesmo em meio à escuridão, deu para sentir um estremecimento do pessoal todo.
O garçom que nos atendia ficou eletrizado. Olhou para os demais, que bebericavam umas birras no bar, e falou em voz alta: “ZABAIONE!”
Com um olhar malicioso, ele começou a falar comigo em italiano, mas em meio àquela comoção só consegui entender “zabaione” aqui e ali. Ele olhava para mim, olhava para a Vânia, piscava para os demais garçons que já se aproximavam, meio rindo e meio sacaneando conosco.
Montaram ao lado da mesa uma pequena instalação com um bico de gás embaixo e um cone de cobre em cima. O barbudinho que nos atendia acendeu o fogo, quebrou uns ovos lá dentro, colocou açúcar e vinho Marsala. Com um daqueles batedores de clara transformou a mistura em uma espuma cremosa e amarela, servida em taças de sorvete com cantucci ao lado. Um gemadão “batizado”, com biscoito, traduzindo para o português.
Enquanto degustávamos, a turma do bar levantava copos de vinho em nossa direção. E o garçom, que continuou conversando comigo, finalmente me fez entender o motivo de toda aquela atenção: o tal zabaione é tido como afrodisíaco, um energético, bom para criança com anemia, mas bom também para um par romântico pronto para trocar fluidos vitais.
Sem tirar o risinho do rosto, nos atenderam cheios de mesuras até o fim. Nos deram um licor de brinde antes de irmos embora. Deu para sentir que estavam todos torcendo por uma noite inesquecível de um casal de namorados.




