O mundo já foi mais inocente

Ontem o planeta inteiro recordou o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, acontecido há 25 anos, em 11 de setembro de 2001. Um histórico e aterrador evento, cheio de simbolismos. Entre tantas coisas, instituiu entre nós um mundo de maior vigilância e desconfiança. Em aeroportos, por exemplo, passamos a ser todos suspeitos. Não podemos nem levar tesourinha de unha em nossas “nécessaires”. Já normalizamos isso, mas me lembro que vivemos momentos de maior leveza.
Por volta de 1987, eu consegui um acordo com o Jornal do Carro, um suplemento do Jornal da Tarde, do grupo Estado. Tinha que enviar uma matéria por semana, de Londres. O assunto era carro, claro, mas as pautas eram próprias. Precisava contar com as oportunidades e a criatividade. O lado bom é que a regularidade semanal me garantia o dinheiro do aluguel. O lado ruim é que o correio custava uma fortuna.
Datilografava os textos em papel sulfite. Quando a Vânia fazia as fotos para ilustrar a matéria, separava o rolinho de filme não revelado, porque custava caro. Punha tudo em um envelope e pegava a Picadilly Line, a linha azul-escuro do metrô, direto para o aeroporto de Heathrow. Desembarcava lá uns 45 ou 50 minutos depois e caminhava outros 20 minutos pelos labirínticos corredores até o Terminal 4, onde ficava o guichê de check-in da Varig.
Se me lembro bem, às quartas-feiras, 22h45, havia um voo para São Paulo. Me postava ali e esperava. À medida em que os passageiros iam chegando eu me aproximava, perguntava se eram brasileiros e me identificava.
- Meu nome é tal, escrevo para o Jornal do Carro, de São Paulo. O senhor poderia levar esse envelope com minha próxima matéria? Amanhã alguém do jornal vai buscar em sua casa...
Juro! Alguns recusavam. Outros pediam para olhar dentro do envelope, que eu deixava aberto. No final, sempre conseguia um portador. Anotava o endereço do sujeito e mandava para a redação, por telefone. Nunca falhou. \
Nunca fui abordado por policiais ou seguranças.
Devo ter feito isso durante um ano e meio. Até que descobri o malote da Varig, organizado pela abençoada Sonia Duailibi, a “Nossa Senhora dos Jornalistas Brasileiros Desamparados pelo Mundo”. Então, era só deixar o envelope na loja da empresa em Hanover Street, a duas quadras de Oxford Street. Também nunca falhou.
Naquela época, em um dos nossos retornos ao Brasil, fizemos um voo com escala de um dia em Nova York. Dormimos em um barquinho a remo no Rio Hudson (essa é uma outra história) e visitamos as Torres Gêmeas. Eram impressionantes e representavam a força dos EUA, então no auge, encurralando a antiga URSS para determinar o fim da Guerra Fria. Éramos, decididamente, mais inocentes.




