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BLOG PIQUINI

Emprego “assassinado pelo presidente”

há 7 dias
2 min de leitura
Mesa de sinuca em um bar escuro, com bolas espalhadas, tacos e um cigarro aceso, representando as madrugadas de Marco Piquini na Avenida São João após o trabalho de revisão no Estadão.

Em 1981, arrumei trabalho na revisão do Estadão, na Marginal Tietê, em São Paulo, depois de largar os jornais de S. Bernardo, que pagavam quase nada. A gente se sentava em duplas para revisar cópias xerox de pequenos blocos de matéria já diagramada. Líamos centenas desses pedaços de notícias por noite, distribuídas aleatoriamente pelas mesas. Nem sempre dava para entender se era o começo ou o fim de uma matéria, um jeito muito esquisito de ler notícias.


Uma noite, por exemplo, caíram em minhas mãos, três vezes em seguida, trechos de uma história muito detalhada do Bob Dylan, meu ídolo. Levantei-me e perguntei em voz alta, tentando aparentar calma, mas aterrorizado por dentro: “Alguém aí sabe se o Bob Dylan morreu?” Nada: era uma reportagem sobre os 40 anos dele.


O trabalho era de madrugada. Entrava por volta das dez da noite e saía às três, quatro da manhã, por aí. O transporte do jornal deixava a gente na Praça da República, no centro, e eu ia jogar sinuca nos bares da Avenida São João, que ficavam abertos toda a noite. Era para matar tempo: os ônibus para São Bernardo só partiam perto das cinco.


Comia Bauru com tomate e orégano e jogava com uns tipos estranhos que circulavam por ali. Uma vez perdi partidas seguidas para um cara magro com jaqueta de motoqueiro americano cuja ocupação, conforme me explicou, era “revender acetona no Mato Grosso”. Perguntei se aquilo dava dinheiro. Ele riu e disse, falando baixo: “Vendo em latões.” Só anos depois soube que acetona era usada para refinar cocaína.

Na hora certa, descia até o Parque D. Pedro para ir para casa. Havia duas linhas. S. Bernardo-Via Anchieta e S.Bernardo-Via Caminho do Mar, a que eu pegava porque naquela época morava no Rudge Ramos. Os dois ônibus partiam com cinco minutos de diferença um do outro e, todas as noites, os motoristas apostavam corrida para ver quem fazia primeiro a súbita curva à esquerda no final da descida da Avenida Nazaré, no bairro Ipiranga. Quem conhece aquela inclinação pode imaginar o pavor dos passageiros.


Essa rotina, felizmente, durou pouco. Porque revisar exige atenção. E eu sempre fui meio distraído. Acontecia de revisarmos anúncios e editais com letra miúda e linguajar jurídico. Na vida de sono dessas madrugadas, era fácil cometer erros. Numa dessas, uma carta de protesto que devia começar com um solene “Nós abaixo-assinados, vimos pela presente”, virou uma piada porque eu deixei escapar um anedótico “nós, abaixo-assassinados, vimos pelo presidente”.


Foi a primeira e última vez que fui demitido por justa causa. Até hoje sinto vergonha por isso.

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