Cogumelos na madrugada londrina

Quando o último freguês ia embora da Pizzamia, em Kings Road, perto da meia-noite, nos reuníamos para dividir rapidamente a gorjeta entre todos antes de pegar o último metrô para casa. Mas naquela sexta-feira, o dono do restaurante, um romano chamado Stefano, nos convidou para “catar cogumelos”. Estava chovendo muito e isso era um bom sinal, segundo ele. A italianada do restaurante se animou a ir e eu entrei na onda.
Giovanni, o pizzaiolo, cozinhou uma panela gigante de spaguetti alho e óleo e manjericão e o Mario, o gerente, abriu uma garrafa de dois litros de Barolo. Sentamos, comemos, bebemos e rimos muito. Depois, saímos no Golf preto do Stefano. Eu no banco de trás, pensando onde iríamos achar cogumelos em Londres.
Rodamos mais de uma hora até entrarmos no cinturão verde que cerca a cidade e estacionamos o carro na entrada de um parque. Saímos com cestas nas mãos na chuva, que tinha aumentado. Fiquei ensopado imediatamente. O Stefano e o Giovanni se enfiaram no meio do mato e pareciam crianças gritando no escuro. O Mario ia atrás e eu no fim da fila.
No meio de um breu danado eu me vi em uma situação inusitada: sem enxergar nada, eu procurava algo que nunca tinha visto. De repente, o Giovanni berrou lá na frente. Me guiando pelo som dos gritos encontrei os três de joelhos, trabalhando freneticamente.
Não acreditei. Mesmo com a pouquíssima luz de uma lanterninha do Giovanni, vi cogumelos gigantes. Pareciam bonés. Tentei pegar um deles, mas quebrei a parte de cima (que eles chamam de “capello”). Era muito frágil. O Mario me ensinou como pegar por baixo, perto do chão, para tirá-lo da terra por inteiro. As cestas logo ficaram cheias.
De volta ao restaurante, lavamos os cogumelos nas pias da cozinha e os embrulhamos em panos úmidos. Sobre a mesa central, o Stefano cortou-os em peças com um canivete, fatiando a parte de cima e separando o caule com grande cuidado, narrando essas atividades como um locutor esportivo e amontoando os caules todos à sua frente.
Voltei para casa de taxi, quase ao amanhecer, com uma sacola cheia de cogumelos fatiados. Não dormi nem três horas e voltei ao restaurante para trabalhar. Naquele dia, o Giovanni cozinhou para o staff umas pizzas crocantes e gostosas só com massa, azeite, alho e os caules dos cogumelos fatiados. Foram usados também com macarrão e molho de tomate, com carne e com tudo o que comemos naqueles dias.
Os cogumelos que levei para casa começaram a feder com força uns dois dias depois. A Vânia jogou tudo fora, junto com os tênis que eu usei naquela úmida caçada noturna. Eles estragaram “beyond repair”




