A maior luta de todos os tempos

Muhammad Ali x George Foreman: a maior luta de todos os tempos
Na noite de 30 de outubro de 1974, mais de meio século atrás, eu tinha 17 anos e estava aterrorizado: eu iria assistir a um assassinato ao vivo, pela TV.
Era a minha certeza antes da luta entre Muhammad Ali e George Foreman. Era um prognóstico unânime, aliás. Três anos antes, em 1971, na tentativa de reconquistar o título que havia perdido por se negar a lutar no Vietnã (“Nenhum vietcongue me chamou de crioulo”, disse ao recusar o alistamento), Ali perdeu por pontos para Joe Frazier, o campeão dos pesos-pesados. Frazier mandou Ali à lona com um fenomenal gancho de esquerda no último assalto. Ali se levantou, mas perdeu a luta e parte de sua credibilidade.
Acontece que Frazier foi triturado por Foreman dois anos depois, em 1973: foi seis vezes à lona em dois assaltos. Em uma delas, o soco de Foreman o levantou do chão e o arremessou longe. “Esse cara tem marretas nas mãos”, comentou um tio com quem assisti a essa luta.
Ali, irreverente, articulado, carismático, passou meses chamando Foreman de “múmia”, “lento”, “feio”, dizendo que venceria. Era engraçado, mas muitos torciam para que Foreman fizesse picadinho de Ali, um negro politizado, que desafiava o status quo branco desde que se sagrara campeão em 1964, quando anunciou sua conversão ao islamismo, mudou de nome e tornou-se uma referência no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
A expectativa eletrizou o planeta. A luta aconteceu no Zaire (República Democrática do Congo), no coração da África. Soa o gongo do primeiro assalto e surpresa: em vez de “dançar” jabeando em torno de seu oponente, como era seu estilo, Ali tomou a iniciativa e desferiu uma dúzia de diretos de direita que explodiram no rosto de Foreman (que nem sentiu).
Veio o segundo assalto. Para meu terror, Ali recuou, cobriu o rosto com as luvas e o corpo com os braços e antebraços e deitou-se sobre as cordas! Era suicídio ficar parado diante de Foreman, que foi para cima. Pow, pow, pow... Dava para ouvir o barulho dos socos. O corpo de Ali transmitia vibrações pelas cordas e pelo ringue inteiro.
Os assaltos foram se repetindo, Ali aguentando e Foreman cansando. Até que, no oitavo assalto, com os dois exaustos no ringue, Ali encaixou cinco golpes fortíssimos que levaram Foreman ao chão. Era inacreditável: “Havia um plano por trás daquela loucura”, descreveu o jornalista americano George Plimpton, parafraseando Shakespeare.
Ali tinha feito o impossível. Ele não morreu naquela noite, mas aquela luta ainda me causa assombro e encantamento, cinco décadas depois.
O livro A luta, de Norman Mailer, e o filme Quando Éramos Reis, de Leon Gast, contam essa história de maneira brilhante.




