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MARCO PIQUINI E O IVAN LESSA


Quando se é freelancer, busca-se a oportunidade ou o ângulo inusitado. A gente inventa uma pauta assim, do nada, de uma breve associação de ideias, e às vezes acerta na mosca. Em outras, a coisa toda fica na tentativa, vira só memória. Uma vez, por exemplo, entrevistei o Ivan Lessa, na sede da BBC, em Londres. O plano era transformar o resultado do bate papo em uma matéria para alguma revista cultural brasileira. Quando liguei para lá para pedir o encontro, inventei na hora para a secretária que me atendeu que o artigo seria para a revista “Leia Livros”, que era editada pelo Cláudio Abramo. Foi uma invenção de momento. Tudo ainda era uma simples ideia.


Na verdade, eu não tinha nem máquina de escrever. Nem telefone. Nada mesmo. Havíamos chegado pouco menos de três meses antes a Londres, vindos com “zero grana” de Paris, só com nossas malas. Morávamos em um quarto de uma grande casa de três andares e dividíamos o banheiro com os outros moradores, que incluíam ingleses, italianos chilenos e outras nacionalidades. Eu já tinha arrumado emprego de lavador de pratos, mas queria escrever, vender matérias, então veio a ideia de entrevistar o Ivan Lessa. Por que não? Ele era famoso entre os jornalistas, minha tribo. Achei a ideia sensacional.


Telefonei de uma daquelas cabines vermelhas, usando moedinhas para pagar a ligação e, acho incrível até hoje, consegui marcar dia e hora. E lá fomos eu e a Vânia, que faria as fotos. Fomos recebidos pelo diretor da Seção Brasileira, que estava curioso para saber se eu escreveria mesmo para a “Leia Livros”. Sustentei a história. O cara me disse que achava tudo muito estranho porque, segundo ele, o Ivan Lessa e o Cláudio Abramo haviam brigado feio no passado. Não sabia daquela história, e nem sei se era verdade, mas na hora fiquei tenso. Imagino que o Ivan Lessa tenha aceitado me receber por curiosidade, mas com desconfiança.


Fui apresentado ao grande homem de imprensa na salinha privativa dele, na imponente Bush House, onde funcionava a rádio estatal inglesa. Óculos grandões de aro preto, barrigudão, cabelos e barba grisalhos, exatamente como ele aparecia nas caricaturas no Pasquim, um tabloide em que ele me chamou a atenção na época do colégio. Ele tinha um estilo de escrita que marcou minha formação. Despojado, irônico, engraçado. Era um dos meus ídolos na época.


Me lembro da introdução do papo. Não mencionei a história da revista, claro, e perguntei, logo de cara, se ele não estava escrevendo “o livro de sua geração” (coisa que todo mundo especulava), o que ele estava fazendo. Mas a partir daí esqueci quase tudo. Só lembro que ele estava muito sério, fumou o tempo todo e elogiou o sistema de ensino da Inglaterra. Tinha uma filha e ela estudava lá. “Eles aprendem latim, e tem que estudar latim mesmo”, me disse ele, mais ou menos com essas palavras.


Uns 45 minutos depois, quando estávamos já nas despedidas, ele pegou um jornal cuja foto de capa mostrava a explosão do ônibus espacial Challenger, ocorrida no dia anterior, e comentamos o acidente. Isso significa que nossa conversa aconteceu em 27 de janeiro de 1986. Nunca escrevi a matéria. Deve ter sido uma entrevista horrível.


A foto é um registro de uma era passada: o gravador de rolo, a máquina de escrever e o telefone parecem vir direto de filme de época. Eu também era magro. E vestia meu casacão amarelo de camurça com gola de pele marrom, que havia comprado de segunda mão em Paris. Esquentava que era uma beleza.


Confira abaixo a Edição 1.377 - 21 a 27 de setembro de 2022, do Jornalistas&Cia, onde este conteúdo foi publicado.

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