QUANTO MAIS ESTANTES, MELHOR.


Já escrevi sobre o assunto, mas retorno a ele porque hoje, 29 de outubro, é o Dia do Livro: quando os jornalistas apareceram nas transmissões diretas em home office, nas salas de suas residências, em suas bibliotecas ou escritórios, com estantes forradas por detrás deles, a turma caiu de pau. Esnobismo foi um dos mais suaves xingamentos.

No começo, achei que era coisa de quem não lê mesmo. A 5ª edição do Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em setembro passado, mostra (em números arredondados) que o brasileiro lê em média 2,5 livros inteiros por ano, incluindo aí a Bíblia e livros didáticos (aqueles que devem ser lidos obrigatoriamente na escola). Ou seja, não se lê nada por aqui.

Mais recentemente, mesmo pessoas que leem mais que 2,5 livros por ano começaram a “reclamar” das estantes televisivas. Alguns, com grande humor, diga-se de passagem. Gostei, por exemplo, da ideia veiculada nas redes sociais de que está surgindo uma nova profissão: o “personal estanter”, cuja habilidade seria a de montar estantes customizadas para seus clientes, ressaltando aspectos de sua persona, mais intelectual com certos livros, mais descolado com outros. Livros de certas cores dão um clima assim e assado.

Porém, mesmo sendo engraçado, esses comentários não deixam de ser um tipo de crítica que, de certa forma, desestimula o já debilitado hábito da leitura.

Eu, de minha parte, quando vejo uma estante de livro na TV, vou para perto do monitor tentar descobrir se eu tenho alguns dos livros que aparecem lá. Ou os que eu não tenho. Ou ainda, os que eu queria ter lido. Aí ligo a pessoa aos livros e procuro ver as possíveis conexões entre eles e os pensamentos da pessoa que fala na frente deles.

No momento em que o Brasil discute a Terra plana com força, criticar livros, a presença deles, a aura deles e tudo o que eles podem oferecer, criticar quem os possui e quem gosta de exibi-los como seus companheiros de vida e de saber, me parece um erro de perspectiva histórico.

Precisamos de estantes. Quanto mais, melhor.

E basta, agora vou ler um livro.


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