Automobilismo e Halterofilismo
- Marco Piquini
- 17 de jan.
- 2 min de leitura
Histórias do Piquini

Estou jogando fora centenas de quilos de papel que juntei nos sete anos que vivi como correspondente de indústria automotiva em Londres. Foi entre 1985 e 1992. Ou seja, carrego essa papelada comigo há mais de 30 anos e achei que era hora de dar bye-bye para essa tralha que me traz boas memórias, mas ocupa espaço e junta poeira.
Guardei tudo em dezenas de pastas suspensas em um armário específico, com o nome das montadoras em ordem alfabética. Alfa Romeo, Aston Martin, Audi, Bentley, BMW, Bugatti, Chevrolet, Citroen, Ferrari, Fiat, Ford, Jaguar, Jeep, Honda, Lada, Lamborghini, Maserati, Mercedes, Nissan, Rolls-Royce, Saab, Toyota, Volvo e por aí vai. Sem falar nas fabriquetas especiais da Inglaterra, como a Morgan, e mais documentos sobre indústria, estudos, relatórios. Ah, e a parte dos caminhões. Cada pasta é recheada com press-releases, fotografias, aqueles suportes plásticos cheios slides, catálogos, pedaços de cartazes que peguei em feiras, até bolachas de chope com símbolo de marca.
Ao promover essa limpeza, me dei conta de como era mais difícil, ou trabalhoso, cobrir o setor automotivo tempos atrás. Além de gastar dinheiro comprando revistas e jornais de todos os tipos para poder seguir as novidades (não havia internet), a gente era obrigado a recolher uma montanha de material de divulgação quando visitava os shows pela Europa. Era desconfortável: papel pesa muito.
Naquela época, para economizar, viajávamos de trem, barco, ônibus, o que fosse mais barato que avião. Ou seja, o transporte exigia o exercício físico de arrastar aquela bagagem toda para lá e para cá, com muitos inconvenientes. Uma vez, em Amsterdã, fomos assaltados na frente da estação de trem. O espertinho levou uma mala pesada achando que tinha ganhado na loteria. Até hoje damos risada pensando na surpresa dele quando abriu o seu “prêmio”.
O grande “terror” era o Salão de Frankfurt, na Alemanha, o maior por aquelas bandas. Para comparar: imagine uma área de exibição com cinco, seis, sete pavilhões do tamanho do Anhembi, separados por ruas e avenidas. Tinha até transporte para as pessoas se movimentarem entre as áreas de exposição. Todas as montadoras compareciam e caprichavam nas apresentações. Isso significava materiais riquíssimos. E dá-lhe papel, fotos, slides e tudo o mais que se possa imaginar.
Uma vez voltei de lá com uns 30 quilos de material. Acomodei tudo em uma mala com rodinhas, do tipo sanfona, que se estendia até a altura de uns 60 centímetros. Veio completamente estufada de press-kits. Morávamos em um sobradinho geminado muito bacana em Cristal Palace, no Sul de Londres. Não havia metrô, só uma estação de trem, a Gipsy Hill, que ficava no fundo de um vale bastante íngreme. Para ir de lá para casa, tive que subir a pé a encosta arrastando aquela papelada toda. Parei umas quatro vezes para descansar, suando muito, apesar do frio.
Pensando bem, ser correspondente naquela época era uma mistura de automobilismo com halterofilismo. Uma espécie de anteprima do crossfit. Uma coisa que hoje os meios de comunicação eletrônicos eliminaram. Para o bem do meio ambiente. E para o mal dos músculos dos correspondentes.








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